Bem-te-quero e malmequeres‏

1º acto
Ao longo de muitos anos (décadas!), a Zona Velha do Funchal foi entregue à sua própria sorte: prédios a chorarem lágrimas de tinta desbotada pelo Tempo, portas e janelas encolhidas com vergonha da sua degradação, ruas abandonadas ao desprezo e à sua condição de marginalizadas, telhados a caírem do alto da sua ancestral importância, silêncios escuros e fétidos, a sua alma sangrando pelo esquecimento a que fora votada.

2º acto
Em Agosto de 2010 alguém que não é de cá apresenta aos responsáveis máximos da edilidade funchalense um projecto denominado “arte de puertas abiertas” que passava pela intervenção plástica nas portas abandonadas da Zona Velha. E eu, enquanto actor nessa reunião, avançava inclusive com a ideia de se passar a promover anualmente uma semana de “arte urbana” com a participação de vários artistas, de cá e de fora, que interviessem em portas, fachadas, empenas cegas e o que mais se proporcionasse.
Seria a forma de recuperar o bairro antigo da cidade não só para os seus cidadãos como para quem nos visitasse. De trazê-lo de novo para a ribalta entregando-lhe o que é lhe devido: a nobreza, a beleza, o ambiente boémio e o seu lugar na História dos Tempos actuais.

3º acto
Hoje, passado pouco mais de um ano, a Zona Velha está irreconhecível. Ressuscitou das cinzas pela mão de artistas plásticos, de escritores e de comerciantes que, com novas ideias, vieram alavancar o bairro e dar-lhe uma outra energia e várias novas faces.
Só que, como é do fado português, quando um projecto começa a resultar e a ter retornos positivos, aparecem pelas suas frinchas o ciúme e a inveja, a necessidade de protagonismo e vedetismo, o oportunismo gratuito e a insensibilidade daqueles que, acima de todos os outros, deveriam manter-se distantes das mesquinhas guerras territoriais e lobísticas, ou seja, os artistas.
Hoje, as portas e murais pintados, os espaços intervencionados, são objecto de auto-promoção para oportunistas em final de carreira, para artistas medíocres que fizeram do amiganço suspeito a forma de se promoverem, para gente sem sensibilidade artística que tem vivido na sombra e aproveitou este momento para aparecer e marcar território.
Hoje, na Zona Velha do Funchal, impera a traição, o apropriamento indevido, um ambiente de cortar à faca, uma guerra de palavras e acusações, um jogo de influências e oportunismos que em nada abonam a favor desta zona da cidade, dos que nela habitam, dos que nela trabalham, dos que nela vêem um palco de exibicionismos mais ou menos elitistas, mais ou menos arrogantes, mais ou menos ignorantes.
Um projecto que deveria ser de consensos, de reunião de ideias e esforços é hoje um projecto de fracturas e clivagens. Só não vê quem não quer ou quem está demasiado ocupado com o seu próprio umbigo.

4º acto
Daqui a uns anos, não serão precisos muitos, rezará a História que a Zona Velha do Funchal viveu alguns anos de apogeu artístico. E que acabou por definhar devido à ganância e inveja de alguns, à pobreza de espírito de outros, aos rabos-de-palha de uns tantos, à falta de civismo e cultura de outros ainda e sobretudo à falta de sensibilidade e escrúpulos de todos os que deste lugar da cidade se quiseram aproveitar acabando por assassiná-la por entre esquemas de malvadez, de oportunismo, de golpismo e dúbias relações de (falsas) amizades.

Enquanto encenador que me assumo desta peça improvisada, são as vivências acumuladas que trago de fora, e do muito mundo que já conheço com as que fui apreendendo cá dentro, que me faz, entristecidamente, derramar  lágrimas de pena e angústia pela selvajaria e mesquinhice que a condição humana é capaz de produzir por um punhado de protagonismo.
Requiescat in pace.

 

 

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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