Bem-te-quero e malmequeres‏

O povo português sofre, de há uns anos a esta parte, de uma modorra inqualificável, de um estado anestésico irreconhecível para quem, ainda não há muito anos, descobria mundos, vencia guerras, enriquecia estados e liderava rotas comerciais um pouco por toda a parte.
O povo português, inexplicavelmente, abrandou os ímpetos, amansou a fera com que traçou fronteiras, dividiu a esfera e foi plantando padrões por esse mapa-mundo fora.
O povo português passou a ficar conhecido, interna (e não sei se externamente) por um povo de costumes brandos e que se deixa cozinhar, de forma estúpida e imbecil, num eterno e exasperante banho-maria.
O povo português simplesmente deixou de reagir.
Não reage às injustiças perpetradas pela obsoleta máquina judicial portuguesa (veja-se o caso Casa Pia), não persegue governantes que, todos sabemos, têm telhados de vidro por peculato, suborno, pedofilia, violação sexual, violência doméstica, tráfico de droga, de armas ou de influências.
O povo português não reage à quase constante subida de impostos, à constante subida do desemprego, à fuga de patrões e administradores que decretam insolvências e se piram para o Brasil com malas cheias de dinheiro. O povo português não se insurge contra o desvio de fundos comunitários, não se revolta com as astronómicas contas bancárias na Suíça ou nas Cayman. E, ao que parece, está a marimbar-se para as colossais dívidas contraídas por governantes desvairados, irresponsáveis e incompetentes.
Veja-se, a título de exemplo, o golpe de estado militar do 25 de Abril de 74. Desde quando um golpe de estado militar leva cravos nos canos das espingardas? Melhor assim, dir-me-ão. E eu direi: melhor assim! Mas isto revela o que defacto somos: um país sem sonhar uma “primavera árabe”. Sem conseguir organizar uma “intifada social”. Logo nós que, cultural e historicamente, estamos muito mais próximo dos árabes que dos europeus.
É por isso que acredito que os nossos governantes, sejam eles quem forem,continuarão a evacuar sobre o povo português que, enquanto tiver uma reles côdea de pão lá por casa, continuará a “viver bem”. Continuará a equivocar-se quanto ao seu destino alegre e promissor.
E se amanhã eu me vir no desemprego e sem conseguir olhar um futuro? Aí sim, talvez venha para a rua e faça justiça pelas minhas próprias mãos.
Até lá continuarei a ser um corno manso. Como somos, afinal, todos nós, militantes de um povo em queda livre mas sempre com um “se” e um “talvez”entre-lábios.

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