Bem-te-quero e malmequeres‏

A nossa sociedade padece de uma enfadonha, ridícula e doentia síndrome que gosto de definir como “arraial social”.
Em qualquer cantinho da cidade, a propósito de um croquete de carne, de uma empadinha de galinha (os tempos são de crise, é certo…) ou de um gin tónico aguado, em contextos mais ou menos culturais – lançamento de livro, vernissage , abertura de cabeleireiro, inauguração de panaderia, atracção na discoteca, passagem de modelos já…passados.
E por cá vamos sorrindo e olhando de viés, ou mais corajosamente, a objectiva do fotógrafo que, coitado, já muito enjoado deve andar de disparar sempre sobre os mesmos dentes amarelados, sobre os mesmos lábios botoxados, sobre os mesmos colarinhos amarrotados, sobre os mesmos olhares…cansados.
Cansados de tanta falsa euforia, amarfanhados de tanta pinderiquice, enrugados de tanta expressão pseudo feliz  mas que esconde mágoas e angústias e fomes e depressões e tristezas e abandonos e  infelicidades.
É um carrossel diabólico ter que estar em tudo, ou quase, para poder aparecer numa foto miniaturizada mostrando os peitos descaídos, mas corrigidos pela lingerie “push up”, o último vestidinho “made in” China ou o colarzinho de pechisbeque mas que brilha qual Chanel e que (des)combina na perfeição com a malinha Luis (sem “o”) Vuiton (só com um “t”) comprada às escondidas numa travessa sombria  por detrás da Sé.
E quando o verniz estala?? Ui!!! Aí é que é ver de que fibra são feitas as protagonistas de tão distintas cerimónias. É um ai Jesus que traz faca na liga e veneno na ponta língua. É um desandar de palavras e um entrechocar de olhares e ódios que atestam e comprovam a genuína essência dos que se rebolam em eventos públicos e acoitam à luz dos flashes.
É a nossa sociedade no seu…pior!

 António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia

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