Bem-te-quero e malmequeres‏

Por vezes, e sem pensar conscientemente no que estou a dizer, lá venho eu invocar “o alemão”. O alemão? Sim, aquele que dá pelo nome de Alzheimer e que, cada vez mais, é responsável por um final de vista triste e degradante.
Mas não sou só eu que o invoco em jeito de gozo ou brincadeira, mal sabendo todos nós que o usamos desrespeitosamente, da heresia que estamos a cometer para com os que, de facto, sofrem dessa terrível doença que nos tempos actuais ataca com mais frequência e prematuramente tanta gente.
Qualquer “branca” que hoje tenhamos, qualquer lapso de memória, vai logo parar à jurisdição do alemão, acompanhada de uma jocosidade e de um sorriso que poderá ser, ou não, mais ou menos amarelado.
O alemão é responsável pelo esquecimento dos números de telefone que, antes da era do telemóvel, sabíamos de cor e na ponta da memória.
O alemão é acusado dos esquecimentos de nomes próprios e apelidos que, antes da era dos chips e dos “guardadores informáticos do quotidiano” reconhecíamos velozmente e sem hesitações.
O alemão é o culpado de nos esquecermos de desligar o forno a horas (e lá fica o empadão esturricado), de nos esquecermos da torneira aberta (e lá vem a inundação casa adentro), de nos esquecermos da data de aniversário de casamento, de namoro e de sei lá mais o quê…
O alemão, no final de contas, é o bode expiatório do que nada mais é a não ser a nossa preguiça mental que hoje é levada quase ao extremo pela existência de tanto artefacto informático, ou informatizado, que tem como missão “facilitar” a nossa vida e transformar o mundo numa aldeia despersonalizadamente global. Ou seja…um cenário dantesco!
Pela minha parte, e em acto público de penitência e remissão pelas minhas acusações e culpabilizações para com “o alemão”, reconheço que a minha mente, também ela, ficou mais preguiçosa, menos apurada para os detalhes do quotidiano, quiçá menos alerta para as tarefas rotineiras da memória, dando prioridade a outras mais grandiosas e importantes do que a lembrança de um nome, de uma data ou de um número de telefone.
É que hoje em dia a avalanche de informação é de tal forma colossal e constante que alguma coisa tem que ser necessariamente apagada do nosso banco de dados.
Por isso, quem tem culpa não é “o alemão”. Em última instância…serei eu!

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia


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