Bem-te-quero e malmequeres‏

Os pombos…

Nunca tive um especial simpatia por pombos/as…
Até lhes acho piada aos arrulhares que parecem cantados e aos poemas indecifráveis que trazem nas anilhas da minha imaginação.
Até acho graça aos rituais, ou preliminares – dependerá do ponto de vista -, que antecedem a cópula pública, descarada, ao alcance de um gesto mais brusco de enxotamento que lhes apague o despudor.
Até lhes reconheço a coragem e ousadia, o atrevimento!, de virem junto a mim e partilharem, descaradamente, as migalhas do meu pequeno-almoço ou do meu lanche tardio.
Talvez nunca tenha simpatizado com pombos/as pelo facto de defecarem num busto de Eça, numa estátua real ou num baixo-relevo manuelino, intoxicando as figuras, corroendo os materiais ou mostrando o seu desprezo pelos sinais da História, ou pelo trabalho do escultor, do pintor, do cantoneiro, do arquitecto.
É um facto de que nunca gostei de pombos/as e que muitas vezes lhes mostro má cara e lhes lanço gestos de espanta-pombos/as.
Mas a verdade, se for mesmo à procura da verdade, conjecturando, e quiçá filosofando, a propósito deste despropositado e permanente cagar descontrolado, é que de há muitos anos a esta parte também os políticos, sim, aqueles em que voto, a quem aperto a mão e mostro sorrisos, a quem convido para isto e para o que mais houver, andam a defecar em cima de mim. De todos nós, afinal.
E a verdade também é que raramente lhes mostrei má cara ou encontrei algum gesto de espanta-políticos. Mesmo que se sentem às suas secretárias distantes e impessoais e nos seus hemiciclos circenses e me levem as refeições completas sem sequer deixarem umas míseras migalhas para entretenimento dos pombos e pombas com que sempre embirrei. 

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia

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