Bem-te-quero e malmequeres‏

Há festa na cidade!

Chegam dos mais remotos pontos da ilha, compactados em autocarros que bufam más disposições e mecânicas rezingonas.
Trazem acordeão, pandeiretas e brinquinhos.
Vêm pela romaria ou pelo arraial.
Raramente as peças de roupa combinam umas com as outras. A palavra estética não tem cabimento no seu vocabulário.
As mulheres trazem chapéus quadriculados em ridícula desarticulação com o casaco e os sapatos convenientemente práticos e baratos.
Eles, os homens, podem trazer chapéu preto ou cinzento, boné inestético do SLB ou barrete de orelhas, não vá a humidade do fim de tarde impingir-lhes algum reumatismo incómodo, alguma constipação indesejada.
Vêm pela festa.
As adolescentes, porque há sempre adolescentes nestas coisas, vêm de auricular enfiado no ouvido, balançando ao som do Michael Carreira ou trauteando batidas da Shakira.
De mãos enfiadas nos bolsos do blusão, querem fazer de conta que não fazem parte da família. Querem passar despercebidas por entre a multidão citadina, mas procurando avidamente o olhar de algum rapaz urbano que lhe avalie o estilo e lhes dê o aval bacano.
Vêm pelo namorico e pela novidade.
Nestas excursões nunca falta um cambado, nem os três ou quatro sujeitos que regressam trôpegos à camioneta, faces coradas pelo vinho seco, palavras entarameladas pela graduação alcoólica. Catrapiscam os traseiros das garinas mamalhudas, ufanam a sua alegria, gargalham em voz alta e gutural.
Vêm pela alegria.
E todos eles trazem o saco de plástico, a marmita, a lancheira ou a pequena arca frigorifica onde acondicionam as sandes caseiras, os enchidos comprados na mercearia do lugarejo, os doces feitos pela vizinha que não pôde vir por ter a mãezinha entrevada.
Uns e outros vêm pela felicidade de estarem juntos, vêm pelo divertimento, vêm pela fé ou pela vontade de tão-só descerem à cidade.
E todos eles, afinada ou desafinadamente, cantam as cantigas que os unem em laços de companheirismo e em atitudes simples de amizades honestas.
São as gentes humildes do campo. São gente pura na sua essência.   

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia

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