Bem-te-quero e malmequeres‏

Condição de escritor.

Questiono-me muitas vezes acerca dessa condição de ser ou não ser escritor. De eu ser, ou não ser, escritor.
Pego numa balança, areio-lhe os pratos dourados, avalio-lhe o fiel e começo a colocar o ser ou não ser do ofício que exerço paralelamente ao meu mister de viajar e vender sonhos aos que querem conhecer o mundo.
Sim, sei que sou um incontinente palavroso. Debito diariamente milhares de letras para diários, semanários, revista de cá e de fora. Escrevo contos adultos e infantis. Desenho poemas e poesias. Escrevo prefácios, posfácios, comentários, apresentações. Escrevo crónicas de viagem, outras de maldizer, outras ainda de bem-querer. Opino em colunas próprias, mergulho em redes sociais e blogues de todo o mundo deixando o meu rasto literário-poético.
Anoto, reanoto, memorizo detalhes, recupero palavras, recrio ideias e imagens que me surgem muitas vezes de onde não lhes conheço a origem. Escrevo o que vejo e o que sinto e o que vivo.
Mas nunca me sinto completo. Sinto que me falta algo mui importante dessa condição de escritor. Falta-me a coragem (não da escrita, tão-pouco da palavra). Falta-me sim a coragem de tudo deixar e limitar-me a partir. A ir sem regresso. A não voltar porque me perdi nas palavras e de nada mais preciso para viver. Falta-me mergulhar no risco absoluto, na escuridão do amanhã. Livrar-me das correntes que ligam ao salário certinho. Talvez porque neste país o ofício de escritor seja apenas para alguns. Para os génios, com toda a certeza de que eu a eles não pertenço.
E falta-me o resto: o “bas-fond” literário, as esquinas sombrias do ser “bon vivant” por opção, por conta das letras, e preencher parte da minha vida de vícios e caprichos e extravagâncias e excentricidades e roupas coçadas e cigarros abandonados ao canto da boca e bebedeiras criativas e despoletadoras de imaginações quase compulsivas.
Faltam-me as noitadas e os corpos que se agarram aos lençóis das minhas madrugadas, por muitos amores e algumas paixões que nos meus (a)braços já tenham acontecido. Faltam-me os amigos esquisitos e os estranhos conhecidos. Falta-me o risco da incerteza por mais insensatas, irreverentes e desvairadas que as minhas atitudes por vezes possam ser. Falta-me a incerteza do pão. A certeza do desconhecido. A loucura do desassossego, por mais desassossegado que eu já seja.
Não me faltam as noites insones, essas já eu tenho como companheiras de alucinações literárias. Nem me faltam as palavras, essas correm-me no pulsar da caneta, pingam-me dolorosamente do coração manchando a folha alva de papel.
Falta-me ainda mais loucura de ainda mais solidão, apesar de possuir a insanidade das noites-dias-noites-dias que se acumulam em versos, que se despejam nas estrofes. Que gritam os seus orgasmos poéticos em epidermes que se abandonam nos meus descuidados.
De uma maneira ou de outra, um pouco de tudo tenho sido, tenho sentido, tenho experienciado. Mas falta-me sempre uma qualquer sensação, uma qualquer abordagem, um qualquer descomportamento, amputado que me sinto da plena condição de escritor ser.
Ou não ser. Afinal, creio que me resta apenas a louca insanidade de continuar a escrever…

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia.

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