Bem-te-quero e malmequeres‏

Casamentos improváveis

Ao longo dos anos o branco das paredes da imensa sala da minha casa tem vindo a desaparecer e a multicolorir-se numa lenta mas convicta metamorfose epidérmica. São paredes que se encheram de uma vida camaleónica e com vida(s) própria(s).

São paredes de onde têm brotado prateleiras e prateleiras, como se paridas por um qualquer fenómeno paranormal para o qual não sou chamado a perceber. Surgem por vontade própria. Rebentam horizontalmente e por ali ficam, na ânsia de receberem no seu colo liso, e também ele branco, os milhões de letras que se apresentam perfiladas e aconchegadas em folhas de papel dentro das paredes de um livro.

Hoje, quando olho para esta invasão literária que brota das paredes da minha casa, quase que emudeço perante tanta lombada, tanto título, tanto nome de autor, tanta cor e textura e formato que se foram acasalando com o passar do tempo e do pó que insiste em ser o leitor permanente de tanta coisa que já li. Mesmo que de vez em quando seja enxotado, o pó acaba por ser, quiçá, o mais fiel companheiro dos meus livros.

O pó e o meu olhar, já que todos os dias o meu olhar se perde e fixa e deambula e desorienta e procura e afaga e sorri e reencontra e não se cansa de andar pelas mais de três mil obras que se debruçam sobre o meu mundo e nelas guardam tanto do mundo que lhes fui buscar.

Por vezes paro e procuro entender de que forma fui casando umas e outros. O que me levou, por exemplo, a casar Steven Saylor com Saramago. Por que carga de água resolvi encostar Colleen MacCullough a Tim Burton (será sequer que se conhecem na vida real?).
Porque diacho me permiti juntar o Psicopata Americano com o Atentado ao Pudor (será que em alguma esquina das suas cidades-cenário se encontram?).

A que propósito fui provocar a serenidade dos poemas de Cesário Verde com o desassossego do livro de Pessoa? Com que objectivo acasalei os Efeitos Secundários de Woody Allen com o Oh, Mar de Túrbidas Vagas de Henrique Teixeira de Sousa?

E o que cochicharão ao abrigo da lua, no palavroso silêncio da noite, O Pastor das Casas Mortas com a Madame Bovary? Que opinião terá acerca de mim Eurípides quando o deixei cercado por Jô Soares e Jorge Amado? Terá ele entrado n’O País do Carnaval ou participado nos Assassinatos na Academia Brasileira de Letras?

Mal não lhes fará, nem aos autores, nem às lombadas, nem às criatividades que nuns e noutras se encerram, esta convivência literariamente universal. Porque também a mim nunca me fez mal viajar por todas as suas obras, vestir-me dos seus personagens e viver as suas vidas.

Mas caramba…encostar a Lolita (do Nabokov) ao Crime do Padre Amaro (do Eça) ou é pura ingenuidade ou é procurar sarilhos nas prateleiras lá de casa!

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia.


[twitter style=”vertical” float=”left”] [fblike style=”standard” showfaces=”false” width=”450″ verb=”like” font=”arial”] [fbshare type=”button”]

Pin It on Pinterest