Bem-te-quero e malmequeres‏

E se o FB se finar?
(eu consigo sobreviver)

Nunca me permiti ser dependente fosse do que fosse por mais coisas que ao longo da vida tenha experienciado, mesmo nos mais loucos anos da minha juventude.

Sempre tive por hábito tudo consumir moderadamente, sabendo perfeitamente onde se encontram as linhas que delimitam os territórios do bom-senso, da tentação, da perdição e da dependência.

Gosto até de, pontualmente, cumprir períodos de “desintoxicação” que me imponho sem qualquer sacrifício ou contrariedade, muitas vezes apenas pelo gostinho de saber que não sou dependente do que quer que seja. Quiçá de alguém, mas nunca de um(a) qualquer.

Não é por isso uma qualquer banal rede social que algum dia terá o poder de me submeter aos seus ditames.

Fico é cada vez mais preocupado com inúmeros casos de pessoas que (des)conheço que passaram a centralizar a sua vida neste ecrã, a esmiuçar publicamente cada minuto da sua vida (como se isso interessasse a um número de pessoas para lá da vintena), a detalhar cada circunstância da sua existência como se este lugar fosse o epicentro da sua (ir)realidade. Como se a ele viessem buscar o ar que precisam para respirar, as luzes dos holofotes de uma ilusória ribalta ou, quem sabe, o aval para comportamentos e necessários reconhecimentos.

Sim, eu sei que quase todo o mundo hoje em dia passa pelas redes sociais. Pode até ser bom. Pode até ser mau.

É sobretudo triste assistir a tanta solidão, a tanta busca de uma palavra de conforto, de carinho, de engate. É tantas vezes sórdido assistir a tanta conversa de chacha que não se coíbem de plasmar, a tanta falsa alegria, a tanta assumida inveja, a tanta identidade camuflada, a tanta ignorância arrogante e mediocridade de partilhas.

Perguntava-me um destes dias: e se o FB se finar? – Eu consigo sobreviver (como já consigo) sem qualquer margem para dúvidas!

Vou voltar a ouvir a voz dos amigos que me dão os parabéns, agora virtuais (pecado de que também me penitencio). Vou voltar a receber cartas e postais ilustrados (falha de que também padeço). Vou voltar a ligar para uns e para outros para os convidar para mais um jantar literário. Vou voltar a ouvir mais músicas na aparelhagem cá de casa, ou a ler mais poesia nas páginas dos livros com cheiro a tempo e papel. Vou voltar a sentar-me à mesa de uma esplanada para tratar de assuntos disto e daquilo. Vou voltar a sentir que, afinal, consigo ser um rosto, um cheiro, um toque, um ruído, um olhar, um conjunto de sentidos que fazem sentido num mundo cada vez mais desumanizado, estranho, rápido, ávido, insaciável e impiedoso. Vou voltar a sentir que a raça humana ainda existe, ainda sabe conversar, ainda sabe escrever sem erros ou ter conhecimentos não aberrantes e conversas que não sejam grotescas.

Com toda a segurança que me confere o facto de nunca me ter permitido virtualizar, ou arrebanhar, por este fenómeno que a tantos condenou a uma ainda maior solidão injectada pela impessoalidade, reconheço a utilidade e todos os aspectos em que o FB é substantivo, porque a mim também me dá jeito para muitas coisas. Mas serei sobretudo a favor da humanização das relações e do “face to face” (with no book).

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia.

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