O sentido da Páscoa cristã nos tempos de hoje

1. Jesus Cristo continua a ser uma proposta para a vida toda e a vida de todos os homens e mulheres de todos os tempos. A descoberta de Jesus Cristo Salvador de toda a humanidade é algo de elementar na acção da Igreja de hoje. A Igreja, Nele e por Ele descobre-se a si mesma como caminho possível de redenção e de sentido para os passos da humanidade. No entanto, salvaguarde-se que a pessoa de Cristo é sempre muito mais do que aquilo que somos capazes de viver e de propor.

2. Jesus Cristo é a chave que abre os corações, sem jamais os trancar, para a luz da paz, da fraternidade e do amor.

Conta-se assim meio a brincar mas com um fundo de verdade algo impressionante. No primeiro aniversário de casamento, a esposa ou o marido podem dizer: «faz hoje um ano que te dei as chaves do meu coração!» O outro com a voz dorida pela frieza da constatação pronuncia: «é verdade… Mas 15 dias depois mudaste-lhe a fechadura»! – Jesus será essa chave nova que abre as fechaduras sem nunca as fechar por qualquer razão ou condição.

3. A paixão ou entusiasmo pelo projecto de Cristo, nunca se verga aos laços macabros do egoísmo e da soberba humana. Qualquer atitude desenfreada que violente essa relação pessoal com Cristo estabelece desde logo uma ruptura com o dinamismo novo que a proposta Jesus Cristo inaugura, como perspectiva de salvação. É, por isso, que a mudança de fechadura será sempre um duro golpe na paixão pelo outro e pela vida.

4. Tudo o que é próprio do macabro e do absurdo da vida, morre como resultado do despojamento dessa entrega que Cristo redentor desafia ou convida a assumir. Vivemos séculos de doutrina doce e continuamos a mascar a pastilha elástica insonsa de uma mensagem no sentido de um moralismo mole que não pode eliminar a força da mensagem daquele que veio «lançar fogo à terra» (Lc 12, 49). «Julgam que vim trazer a paz ao mundo?! De modo nenhum: o que eu vim trazer foi a divisão» (Lc 12, 51).

Este que nos falou e que continua a falar a cada um de nós hoje oferece a ressurreição, a plenitude da vida (resposta à tão procurada eternidade pela humanidade) como dom ou graça. Esta gratuidade é a tomada de consciência do meu «eu», condição do despertar para a realidade do Reino de Cristo – o lugar da experiência do encontro, a condição essencial do ser cristão hoje e sempre (cf. Jo 1, 1-4).

5. A ressurreição tem esse preço: despertar para a realidade do Reino. Um reino onde se entra não pela guerra, pela invasão ou pela conquista, mas pela dose de entrega ao serviço do outro, o que implica um eficaz desprendimento dos bens, que no fundo manifesta uma radical preocupação mais em dar do que em receber. Porque ninguém pode ficar para trás.

Chegamos à única regra de Jesus, a do amor. Cristo, esse Deus sem raios e sem coroa (a não ser a de espinhos), não é um rei legislador. Não impôs mandamentos ou leis, evocou as «Bem-aventuranças». A única lei possível é a lei do amor, vivida sempre em todas as circunstâncias da existência humana.

6. As estradas do mundo ficam em melhores condições para serem encetadas pelos homens, quando iluminadas pelo ícone Jesus Cristo. Assim sendo, no rosto de Jesus percebemos como a misericórdia de Deus se radicaliza cada vez mais. Daí, comungamos a vontade de dar mais nas vias do diálogo que une para lá das diferenças de língua e de raça, na partilha dos ideais e dos dons, dos problemas e das esperanças… Com tudo isto, se fará uma experiência viva da realidade prometida por Cristo: «Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 20).

José Luís Rodrigues

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