“É possível viver apenas de Bitcoins”

Marco Freitas, utilizador de Bitcoins, acredita que “no futuro o dinheiro digital substituirá o dinheiro físico”, garantindo que as criptomoedas “não são nenhum esquema Ponzi”.

Tribuna da Madeira (T.M.) – O que é o Bitcoin?
Marco Freitas (M.F.) – O Bitcoin é uma rede, que funciona de forma consensual, onde foi possível criar uma nova forma de pagamento e também uma nova moeda completamente digital. É a primeira rede de pagamento descentralizada (ponto-a-ponto) onde os usuários é que gerenciam o sistema, sem necessidade de intermediador ou autoridade central.

T.M. – Como é que esta moeda é gerada?
M.F. – Os novos Bitcoins são gerados através de um processo competitivo e descentralizado chamado “mineração”. Esse processo consiste na recompensa dada aos usuários pelos seus serviços. Os “mineiros” de Bitcoin processam as transações e, por sua vez, tornam a rede segura usando hardware especializado e coletando novos Bitcoins em troca.

T.M. – Onde é que se consegue arranjar esta moeda digital?
M.F. –  De várias formas, onde se incluem, por exemplo, o pagamento de bens ou serviços; a compra através de câmbio de Bitcoins; a troca direta de Bitcoins e a mineração competitiva.

T.M. – Émuito dispendioso minerar criptomoedas em casa?
M.F. – Atualmente, a mineração só faz sentido em locais onde a energia elétrica seja muito barata e através da utilização de grandes data centers. Ou seja, a mineração tornou-se numa operação industrial muito dispendiosa. Neste momento, são as grandes empresas de mineração que dominam este mercado, ou seja, são elas que controlam a rede de processamento do Bitcoin.
Portanto, a mineração em casa – mesmo utilizando-se ASIC’s especializados – não gera Bitcoins em quantidade suficiente para que o investimento em equipamento e, por sua vez, os gastos em energia elétrica sejam devidamente rentabilizados. Por sua vez, hoje a quantidade de Bitcoins gerada também é bem menor do que a quantidade que era gerada no começo da rede, situação que contribui para uma maior valorização desta moeda digital.

T.M. – Quais são as principais vantagens e desvantagens desta criptomoeda?
M.F. – As principais vantagens são a liberdade de pagamento, as baixas taxas, o menor risco para os comerciantes, a segurança, o controle, a transparência e a neutralidade da moeda.
Por seu turno, enumero como principais desvantagens o grau de aceitação, a volatilidade da moeda, que tanto pode subir ou diminuir de valor rapidamente, e o desenvolvimento em curso.

T.M. – E as transações com Bitcoins são seguras?
M.F. – A tecnologia Bitcoin – o protocolo e a criptografia – tem um registo forte de segurança. A rede Bitcoin é, provavelmente, o maior projeto de computação distribuída do mundo. A vulnerabilidade mais comum do Bitcoin é o erro do usuário.
Por sua vez, os arquivos de carteira de Bitcoin, que guardam as chaves privadas necessárias, podem ser apagados, roubados ou perdidos. Isto é bem parecido ao dinheiro tradicional mantido em formato digital. Felizmente, os usuários podem utilizar boas práticas de segurança para proteger o seu dinheiro ou utilizar provedores de serviço que oferecem bons níveis de segurança contra a perda ou o roubo.

T.M. – É possível trocar Bitcoins, por exemplo, por euros?
M.F. – Sim é possível! Desde que a pessoa se registe numa carteira de Bitcoins que tenha um cartão de débito associado pode efetuar o seu levantamento em qualquer caixa de multibanco ou ATM.

T.M. – Algumas empresas, como a Xapo, já disponibilizam esse cartão de débito que permite levantamentos em ATM’s ou efetuar pagamentos em terminais multibanco. Este tipo de cartão funciona de forma eficiente tal como é publicitado?
M.F. – Sim funciona de forma muito eficiente conforme é publicitado! Posso assegurar, por experiência própria, a sua grande eficiência, tanto a nível de levantamentos, como a nível de pagamentos, sendo que uso regularmente o cartão sem que haja qualquer tipo de problema.

T.M. – O facto desta criptomoeda ainda não ser alvo de legislação poderá, por exemplo, servir para “lavagem” de dinheiro?
M.F. – O Bitcoin é dinheiro em formato digital. Como todos nós sabemos, o dinheiro sempre foi usado para fins legais ou para fins ilegais. O dinheiro, os cartões de crédito e os sistemas bancários atuais superam amplamente o Bitcoin em termos de uso para financiar crimes. Ou seja, o Bitcoin pode trazer uma inovação significativa nos sistemas de pagamento, sendo que os benefícios dessa inovação são muitas vezes considerados como muito além das suas desvantagens potenciais.
Num futuro próximo, o uso do Bitcoin será, sem dúvida, submetido a regulamentos semelhantes aos que já estão em vigor dentro dos sistemas financeiros existentes. Para além disso, a utilização do Bitcoin não impede que investigações criminais sejam levadas a cabo.
Em geral, é comum as descobertas importantes serem entendidas como duvidosas antes dos seus benefícios serem bem compreendidos pela população. A Internet é um bom exemplo dessa minha afirmação.

T.M.  – Mas muitas pessoas associam os negócios online como sendo esquemas de Ponzi. Os Bitcoins são mais um desses esquemas ‘manhosos’?
M.F. – Um esquema Ponzi é uma operação de investimento fraudulenta que paga retornos ao seus investidores com o seu próprio dinheiro ou com o dinheiro de novos investidores, ao invés de lucros obtidos pelas pessoas que gerenciam o negócio. Os esquemas Ponzi entram em colapso quando não se verifica a entrada de novos investidores.
Pelo contrário, o Bitcoin é um projeto de software gratuito sem autoridade central. Consequentemente, ninguém está em posição de realizar representações fraudulentas sobre o retorno de investimentos. Como qualquer outra moeda – como o ouro, o Dólar Norte-Americano, o Euro, o Yen etc. – não existe garantia de que o poder de aquisição e a taxa de troca flutuem livremente. Isto nos leva à volatilidade, sendo que os proprietários de Bitcoins podem, imprevisivelmente, lucrar ou perder dinheiro. Além da especulação, o Bitcoin é também uma forma de pagamento prestativa e de atributos competitivos que está sendo usada em muitos negócios e por milhares de utilizadores.

T.M. – Nos últimos meses, o valor do Bitcoin já ultrapassou os 2500 dólares (1 Bitcoin). Considera que o valor desta moeda tem ainda muita margem para crescer?
M.F. – Considero que esta moeda digital ainda vai ter muita mais margem para crescer. Alguns estudos realizados indicam mesmo que, até ao final deste ano, o Bitcoin é capaz de bater os 4000 dólares. Neste momento, o valor de um Bitcoin já atingiu a linha dos 2800 dólares, o que demonstra o potencial desta moeda digital.

T.M. – Alguns países, como a China, já começam a olhar para o Bitcoin como uma alternativa monetária. Pensa que esta tendência se estenderá a mais países?
M.F. – Penso que sim! Além do Japão e dos Estados Unidos, a China, a Rússia e o México estão em processo de regulamentação de leis sobre o uso de moedas digitais.

T.M. – Acha que no futuro as atuais moedas e notas físicas tenderão a desaparecer dando lugar ao dinheiro digital?
M.F. – Penso que para aí caminhamos. Com efeito, estamos a passar por algo que está a revolucionar tudo o que conhecemos, sendo que a adesão às moedas digitais é cada vez maior. Para além disso, está cada vez mais a aparecer novas moedas digitais. Desta forma, estou convicto de que no futuro o dinheiro digital substituirá o dinheiro físico.

T.M. – Há notícias que relatam que na Venezuela muitas pessoas têm conseguido sobreviver graças aos Bitcoins. O que pensa disto?
M.F. – Num país em que todo o dinheiro físico é controlado pelo governo e a sua população está a passar por momentos de grande dificuldade e aflição, o Bitcoin tornou-se numa boa solução para fazer face a esta situação delicada. Ou seja, o Bitcoin tem sido uma forma de salvação do povo venezuelano. Por isso deixo aqui a questão: O Bitcoin é assim tão mau?

T.M. – Podemos então afirmar de que é possível uma pessoa viver apenas de Bitcoins?
M.F. – Sim é possível viver só de Bitcoins! Inclusive, há pessoas que hoje em dia usam apenas esta moeda digital, nomeadamente as que fazem ‘trade’.

T.M. – Na Madeira já existem muitas pessoas que aderiram ao Bitcoin?
M.F. – Conheço muitas pessoas na Região que já se estão a “render” ao Bitcoin, sendo que no futuro esse número tenderá a crescer exponencialmente.

T.M. – Para além dos Bitcoins, há outras moedas digitais que também estão a ganhar valor como, por exemplo, o Ethereum. Considera que há lugar para mais moedas deste género?
M.F. – Sim, é verdade que já existem mais duas que estão a ganhar valor, sendo que está uma terceira a caminho da valorização. No futuro existirão muitas mais. Porém, na minha opinião, nenhuma dessas moedas digitais irá superar o Bitcoin.

T.M. – O que aconselharia a uma pessoa que queira aderir a estas moedas digitais?
M.F. – Como o futuro são as moedas digitais, aconselho que as pessoas invistam nestas moedas. A curto/médio prazo, o referido investimento será bem rentabilizado. Veja-se, por  exemplo, o caso do Bitcoin que em 2009 valia apenas 0.0001 dólares (1 BTC) e atualmente vale mais que 2000 dólares (1 BTC).

 

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2 thoughts on ““É possível viver apenas de Bitcoins”

  • 20 Junho, 2017 at 19:20
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    Eu gostei do artigo e só comprei o Tribuna por causa desta notícia. O bitcoin é algo que deve ser levado a sério e não tem nada relacionado com pirâmides. Há muitos venezuelanos que estão a conseguir sobreviver graças ao bitcoins. Quanto ao entrevistado achei que dominava bem o assunto. Os meus parabéns ao Tribuna da Madeira.

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  • 20 Junho, 2017 at 13:41
    Permalink

    Como sempre, as notícias do Tribuna da Madeira deixam as suas dúvidas. Poderiam ter encontrado outra pessoa melhor. Foram escolher um burlão, que toda a gente sabe que está a enganar totós com a conversa da pirâmide chamada PayDiamond.

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