JOSÉ CARVALHO
Não restam dúvidas de que as leituras de infância que mais marcaram Sócrates e, de cujo imaginário somos forçados a pagar a pesadíssima factura e a perder o futuro, foram “Alice no País das Maravilhas”, seguido do “Pinóquio”.
O aviltante da questão para nós, pelo menos os que pagamos o erro do voto dos outros, é o facto de que, enquanto a verdade é o ponto de honra de políticos intelectualmente honestos por esse mundo fora, cá em casa, é assunto proibido.
Por muito que se denuncie os logros e situações que nos impingem, que não sendo ainda paradisíacos, o serão garantidamente no futuro próximo, depois de termos um TGV e um aeroporto, que afinal vai ser construído no deserto, aquilo que começou por ser uma vaga impressão, como aquela que as borbulhas causam ao aparecer, está cada vez mais a tomar foros de credibilidade e que, muito simplesmente, diz: o valor de Sócrates só será apreciado em toda a sua grandeza, a título póstumo.
Daqui até lá, apesar das armas que a democracia nos dá, mas o PR trava, só nos resta empobrecer, continuar a viver de mentiras e ilusões e vermos a Europa cada vez mais distante.
Curiosamente, para os poucos honestos e lúcidos, mas normal, para os milhões de desatentos, a comunicação social, com relevo para a televisão, parece ter medo de entrevistar portugueses sábios, credíveis, honestos e verdadeiramente patriotas, ou então e muito pior, faz o frete aos poderes instalados entrevistando os alinhados com esse poder, que repisando até à náusea estafados lugares comuns, que fedem de tão rançosos que estão e se multiplicam como os cogumelos, neste caso venenosos, aqueles que afinal se podem comer…mas só uma vez, e conseguem pela saturação convencer que o único futuro, é seguir o messias – Sócrates.
Nem param para pensar que Cristo não anunciava milagres e, mesmo como ofensivamente Saramago o classifica, afinal, fazia-os na hora e à frente de todos e, por isso mesmo o mataram!
Cá cultiva-se a promessa inconsequente, apoiada no coro de louvação, entoado pelos que, entretanto, foram premiados pela sua fidelidade canina e, como é moda dizer, constituem o núcleo duro, tendo em contrapartida sido aliviados das preocupações comezinhas, inerentes à indispensável sobrevivência.
Esta semana fui surpreendido por dois momentos de enorme prazer e um de muita saudade.
Comecemos pela tão portuguesa saudade e aqui lamento a raridade das claras explicações de Medina Carreira, com muitos inimigos, embora cobardes, por se recusarem ao confronto directo de ideias com ele e o classificam de derrotista e arauto da desgraça. Deixem a oratória deprimente e de cassete e, como homens que julgam ser, cresçam intelectualmente e discutam as realidades, apoiadas em números insofismáveis.
O 1º enorme prazer, que nunca trai as expectativas, foi ouvir durante 1 hora na SIC, no dia 27, uma extraordinária entrevista a António Barreto.
Na véspera das eleições legislativas escreveu um artigo que se intitulava: “Amanhã Podemos Ter um Desastre”! Acertou em cheio e confirmou que assim o considerava. Mas não se ficou por aí e disse porquê. Deu receitas plausíveis, todas elas com sacrifícios e sofrimento, mas, única maneira de Portugal não desaparecer como país, o que lembrou, não ser caso inédito.
Lamentou o imenso défice nunca contabilizado, com a clareza que um país europeu exige. Os cálculos, que os mais capazes podem fazer e, pecando sempre por defeito, apontam para somas astronómicas, que um país como este não terá capacidade de pagar, mas que, mesmo assim, continua a aumentar diariamente, com o conhecimento do PR e, quem cala consente, embora para esconjurar os demónios a ele aluda, infelizmente nunca, com a limpidez que os portugueses inteligentes exigem.
Nós queremos e temos todo o direito de saber a verdade, pois só se devem fazer sacrifícios, bem fundamentados, com fim marcado no tempo e com seguimento por parte de fiscais credíveis, logo confiáveis!
O 2º prazer, foi ouvir as afirmações de Ernani Lopes, antigo ministro das finanças e que numa prelecção altamente apreciada considerou, que os últimos 10 anos foram de imobilismo e corrupção.
Mais disse, classificando aqueles que têm tido influência em tudo isto, de praticarem “golpadasecas do ordinareco que faz porcarias, condenando o país, por pensar que quando morrer leva tudo com ele”.
Bálsamo para os ouvidos dos que se sentem violentados por serem obrigados a viver num país onde campeia a suja jogada política, o tráfico de influências, a corrupção desbragada que fabrica arguidos às centenas, que depois se transformam em absolvidos, ou porque, entretanto, tudo prescreveu, ou então, nada se provou, e continuaram em liberdade por anos infindos, aguardando trânsitos em julgado.
O maior mal de Portugal é, a cada vez maior incapacidade da justiça, por culpa das leis, feitas muitas vezes por interessados nelas, ou por seus amigos!
A cereja no bolo foi, durante esta semana infernal, a mudança de classificação por uma agência de “raitng”, do risco da nossa dívida externa, de aceitável, para perigosa. A fundamentação deve-se ao “declínio lento e inevitável do país”!!!
Eis, resumidissimamente, o resultado de quatro anos socretinos!
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