Carlos Nogueira Fino
No dia em que entrei na escola primária, no já longínquo ano de 1957, estreei também uma bata. Na época e no local, essa bata chamava-se bibe, vestia-se sobre a roupa a tapar os calções (nessa época, os rapazes que iam completar sete anos ainda usavam calções) e funcionava como uma espécie de avental com mangas. Por essa altura, doze escassos anos após o término da II Grande Guerra Mundial, nunca ninguém tinha ouvido falar, em Portugal, de sociedade de consumo, e a “angústia” quotidiana de decidir o que se irá vestir em cada dia era algo fora de qualquer cogitação. Havia uma roupa de todos os dias, uma roupa para ir à missa, e o bibe. Também havia uma escola austera, servida por professores austeros e “que se davam ao respeito”, como se dizia. Professores importantes. Nas aldeias, as três pessoas mais importantes eram o senhor vigário, o regedor e o professor da escola primária.
Voltei a usar bata já na segunda metade dos anos sessenta, mas apenas nas aulas práticas de ciências naturais, física e química, no Liceu Nacional do Funchal, e por razões óbvias: proteger a verdadeira roupa de qualquer acidente do género aprendiz de feiticeiro. Nessa altura, ainda não existia a Zara, passe a publicidade, nem lojas desse tipo. Mas havia os Beatles, os Stones, Os Demónios Negros e o Conjunto Académico de João Paulo, e a Mary Quant. E nenhum jovem dessa época aceitaria, sem refilar, meter-se dentro de uma bata por razões, digamos, educacionais. Ainda se fosse dentro de um casaco à Beatle, ou à Jivago, no caso dos rapazes, ou numa minissaia, no caso das raparigas… É que esse modelo de escola destinada a formatar todos por igual, começando por garantir que todos se vestiriam da mesma maneira, pelo menos à superfície, já tinha os dias contados. E não tinha ainda sido lançado o álbum The Wall, dos Pink Floyd, exigindo aos professores sarcásticos e castradores, da velha tradição britânica, que deixassem os alunos em paz.
E, entretanto, os tempos continuaram a mudar à medida que a informalidade e a complexidade, sua grande aliada, se foram apoderando do que outrora foi simplicidade, rigidez e autoritarismo. Isso aconteceu fora da escola e as escolas não puderam suportar o cerco. As batas apenas sobrevivem nos infantários, e pelas mesmíssimas razões que aconselhavam o seu uso nos laboratórios do Liceu Jaime Moniz: preservar a verdadeira roupa dos ataques soezes da plasticina.
É claro que ainda há pessoas que se lembram de como a escola era quando o mundo ainda era uma criança, e têm saudades dela. Há mesmo quem ache que, se voltássemos à infância, todos os problemas da educação se resolveriam como que por magia. É como se existisse uma espécie de idade dourada logo atrás de uma esquina da memória: a gente cruza essa esquina e encontra o mundo como o deixou na segunda metade do século XX, imóvel, a flutuar no tempo.
Também é claro que até poderíamos recuar ao século XIX ou XVIII, ou mesmo antes, num afã genuíno e nobre de reformar a escola, actualmente tão cheia de insucesso e de abandono e de tanta e tão crescente desadequação face a uma civilização que se alimenta de precariedade e de mudança. E encontraríamos, seguramente, inúmeros modelos inspiradores. No entanto, pode ser que me engane, mas o único inspirador capaz de galvanizar verdadeiramente a escola do presente será o futuro. E duvido muito que os jovens de que o futuro precisa caibam dentro de um bibe.
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