ANTÓNIO JORGE PINTO
Não precisamos de correr muito para encontrarmos casos estranhos em consultas hospitalares, nomeadamente nos serviços de urgência.
Ninguém sabe quem é o Adriano. O Adriano é um menino de 10 anos de idade, que podia muito bem ser o filho do estimado Leitor(a). O nome do Adriano saltou para o topo das notícias nacionais, no final da semana passada.
Os relatos vindos agora a público dizem que o Adriano havia tido uma semana escolar normalíssima. Fez o que todas as crianças adoram e devem ser livres de fazer na sua idade: brincar, saltar, correr. Ir às escola. No domingo, dia 25, segundo declarações da madrasta, o rapaz começou a fazer febre. Na segunda-feira ainda foi à escola. Mas como a febre persistia, a madrasta ligou para a linha “Saúde 24”.
Por indicação daquele serviço, o Adriano foi levado ao Hospital S. Francisco Xavier. Garante a madrasta que não lhe fizeram o despiste da gripe A e mandaram a criança recolher a casa, “com medicação para uma virose”. Como não houve melhorias no seu estado de saúde, decidiram levá-lo a outro hospital, ao D. Estefânia, onde lhe terá sido diagnosticada a gripe A. Ficou internado.
Dois dias depois, na quarta-feira passada, o Adriano morreu. Toda a comunicação social escreveu: “Gripe A mata a primeira criança em Portugal.” Incorrecto. Mais correcto será: “Criança terá morrido vítima de negligência.” O Hospital já disse que não, que cumpriu com todas as recomendações da Direcção-Geral de Saúde. Ninguém esperava que viessem dizer o contrário, se o fizesse, seria um sinal de que a nossa maturidade, a nossa responsabilidade cívica e democrática estaria finalmente a crescer para patamares de excelência.
Um dia depois da morte do Adriano, a ministra e outros responsáveis tentaram amansar a ira do pai e da madrasta, dizendo que a criança teria morrido de uma cardiomiopatia, uma doença congénita que teria sido potenciada pela gripe A. Portanto, até as autoridades da Saúde reconhecem que o vírus estava lá mas não o diagnosticaram na primeira consulta hospitalar, falha que, conforme denuncia a madrasta, terá ficado a dever-se à falta de exames de despistagem. E isso é o dramático desta situação, que, diga-se, não é assim tão invulgar em Portugal ou na Região.
Não precisamos de correr muito para encontrarmos casos estranhos em consultas hospitalares, nomeadamente nos serviços de urgência. Quase todos nós temos um familiar ou amigo que já passou por situações no mínimo inconcebíveis. Depois, assiste-se a isto: vamos a um outro médico, contamos o nosso percurso até chegar a ele, descrevemos a forma como fomos atendidos ou “despachados” nos serviços de urgência e esse médico, fingindo que nos está a dar atenção, limita-se a ficar em silêncio.
O drama é quando descobrimos que por negligência, azelhice ou incompetência a falta de uma simples análise ao sangue ou à urina, uma radiografia, teriam evitado colocar em risco a vida das pessoas.
O chamado “diagnóstico a olho” fazia todo o sentido quando a tecnologia e a ciência médica ainda não tinham concedido os meios e os equipamentos com a garantida, a eficiência e a precisão que há hoje. Persistir neste erro, por comodismo, negligência ou outro motivo qualquer, quando é a vida das pessoas que está em causa, é uma enorme irresponsabilidade e uma gritante falta de aptidão para o exercício da medicina, no fundo, para o exercício da Vida.
Agora já sabem quem é o Adriano. É uma vítima do sistema, da aviltante impunidade que tem esboroado a consciência nacional. Toda a gente se acha imune e a imunidade é uma espécie de gangrena da nossa sociedade. Acontecem as coisas mais abjectas e ninguém assume a responsabilidade por nada. Há sempre a desculpa, esfarrapada e verdadeiramente patética. Todos pagamos por estas leviandades lusitanas. Até as criança inocentes.
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