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Tribuna da Madeira » Opinião » Os Lírios do Campo » Os lírios do campo

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Autor Tópico: Os lírios do campo
pintoaj
Administrador
Posts: 16
Publicar Os lírios do campo
on: 4, November , 2009, 17:15

ANTÓNIO ferreira neto
Juiz Desembargador

Também está na Bíblia, a alusão metafórica aos lírios, que Mateus imortalizou como exemplo de simplicidade e naturalidade, principais atributos da beleza e da verdadeira felicidade humana. Estilo minimalista, dir-se-ia agora.
Mateus era publicano, quando foi recrutado para discípulo, transformando-se de cobrador de impostos dos Judeus para o Império Romano em evangelista dos mais claros e profundos, letrado que já era antes de muitos que estavam ainda na oralidade da ciência e da cultura. Como exemplo, a soberba transcrição do sermão da montanha, ainda hoje a matriz moral do cristianismo, nas bem-aventuranças da base da solidariedade social que, com alguns percalços, o tem caracterizado.
Nasci e cresci numa casa entre dois caminhos, um velho, em terra batida, que ia da cidade e dava a volta à Ilha, passando atrás da moradia e outro, pela frente, uma estrada em paralelepípedos, feita na altura e que tem a minha idade naquele lugar, onde chegou ao mesmo tempo que eu cheguei, deixando-me quase sem quintal, para grande desgosto do velho Isidoro Afonso.
Como não podia ir para a estrada nova, onde começaram a passar carros, lá de vez em quando, comecei a frequentar o caminho velho, que ali era bordejado de flores cor de pérola, a que o Sardinha, que tinha casa no local chamava lírios do campo.
Achava estranho que houvesse flores no caminho, sem serem cultivadas, mas era assim, os lírios não precisavam mais do que da natureza e do orvalho da manhã para darem flor, que ninguém cortava, secando depois as hastes, que tempos depois apareciam e floriam de novo.
Mais tarde aprendi que nem Salomão, que eu não conhecia nem sabia quem era, não vivia ali perto, vestia tão bem como os lírios, que não trabalhavam nem teciam ou fiavam. Isto diziam os pregadores que dizia Mateus que o Mestre teria dito, como exemplo de que trabalho só quanto baste, o espírito também precisa de alimento.

Não se assustem que não vou continuar com a Bíblia, não sou pregador e já há gente a mais a falar do que mal conhece ou pensa que conhece, embora todos tenham direito à sua opinião nestas matérias, sendo sempre de bom tom, no entanto, o decoro nas palavras, ditas e escritas.
Também não sendo cobrador de impostos, diria no entanto que todos devem trabalhar, se não querem comer o que os outros trabalham, e devem pagar os seus impostos, para que não paguem demais os que os pagam.
E aqui é que está o tema, não se deve trabalhar demais, principalmente tirando aos outros o seu posto de trabalho, com o consequente desemprego que vai alastrando na sociedade. Até no trabalho a sofreguidão fica mal.
Como é natural, ninguém consegue ocupar bem e assiduamente vários postos de trabalho, a não ser como fazem muitos experts, a que também se chama espertos, que faltam um dia ou uma jorna a cada emprego e preenchem três ou quatro ao mesmo tempo.
Administrar várias empresas, algumas no estrangeiro, ensinar em vários locais de diversas especialidades, ter a suas próprias empresas, ganhar por todos esses trabalhos e ainda dar lições de moral, até na televisão, não é sério nem aconselhável, sob pena de ninguém acreditar que o seja.
Naturalmente que há trabalhos muito mal remunerados, que não conseguem dar o suficiente para as despesas do agregado familiar, mesmo do próprio trabalhador, justificando algum esforço complementar na angariação de mais um pouco de salário.
Como sistema, porém, não é a melhor solução a acumulação de empregos, pelo menos nos que não necessitam do seu rendimento, fazendo-o apenas por ansiedade de mais ter, tanto lucro como poder social. Na imagem dos lírios do campo não vale a pena tanta labuta. E isto temos nós que fazer sem ocupar as autoridades, tanto executivas como legislativas, que terão nos próximos tempos a vida muito atarefada com a resolução de problemas muito graves da sociedade, dos quais se destaca a regulamentação dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
O amor não se referenda, diz-se. E regista-se?

PS: Porque faltaste, Virgílio, puseram-me esta semana na tua coluna, que pelos vistos não anda assim muito bem. Que depressa voltes ao teu lugar. Um grande abraço.

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