JOSÉ CARVALHO
Os portugueses, neste segundo semestre, foram brindados pelo Presidente da República com um verdadeiro festival de eleições. Foram elas para o Parlamento Europeu, para o (des) Governo de Portugal e finalmente, seja o que Deus quiser, para aquele concurso em que entre outros, se habilitam numerosos arguidos ou condenados em primeira instância- as Câmaras Municipais!
Qualquer país do mundo, medianamente desenvolvido e com democracia firmemente estabelecida, teria despachado as incumbências de uma assentada, poupando deslocações muitas vezes penosas, poupando ainda fortes e ausentes cabedais, pois até parece que ninguém quer ou é capaz, de tapar os enormes buracos existentes nos fundos dos cofres da nação e, sobretudo, poupando a vergonha repetida de se andarem a fazer eleições, com cadernos eleitorais cheios de fantasmas.
Mas nós somos latinos e amantes de festas, onde há sempre uma oportunidade dumas febras de porco, bem regadas com tinto ou branco da região (na Madeira, espetada, seco do bom e protegido pelo regime) e vem dos tempos dos romanos a tradição regular dos jogos de circo com números violentos, com mortes ou assassinatos, provocados pelos nossos “brandos costumes”, para gáudio da populaça.
Salazar, ditador mas inteligente, criou os três efes. Família, Fátima e Futebol, que os inteligentes dirigentes pós democráticos, transformaram com êxito em Futebol, Eleições, Corrupção e Insegurança.
Assim, seguindo o código genético dos lusitanos, em vez de modestamente despachar as coisas com uma só eleição, vá lá, quando muito, duas, o presidente de todos os portugueses, investido nas funções de intérprete do que é melhor para a Pátria e que lhe é transmitido pelos augustos representantes do povo, determinou a realização de três feiras eleitorais e, assim se fez!
Como frequentemente afirma, o Presidente da República não comenta a maioria das coisas e, quando o faz, é em português de tal modo erudito, que a maioria do povo, para disfarçar a incompreensão, reage, dizendo ao tasqueiro: deita aí mais uma rodada para todos. Os oficialmente 50% (?) grosso modo de obedientes, pegaram nos cartões de eleitores e BI’s e lá foram, por três vezes, para as mesas de voto expressar a douta inteligência. Os cartões de cidadão não dão para, segundo Cavaco, a obrigação de votar, pois embora sendo os mais adiantados do mundo, não há máquinas para os ler, mas calma, porque, um dia destes, haverá.
Aqui chegados, aqueles que ainda se dão ao luxo do exercício de pensar, entre os quais me encontro, pensando bem ou pensando mal, mas pensando, raciocinaram assim: isto da parte do PR é uma forma de enfatizar a importância das eleições, é o tal devolver da autoridade ao eleitor, é uma das enormes mais valias da democracia e sobretudo, facilita-se-lhes a vida, metendo-lhes na mão menos papeis de cada vez, pois só para as autárquicas são três e, assim, de facto e muito justamente, será melhor cumprido o seu direito, agora promovido a obrigação.
Aqui, a questão dramatiza-se e demonstra-nos, que não passamos de peões do jogo sujo da política, pois o inesperado acontece. Com a força de um Tsunami e sem que os aviltados votantes se tivessem apercebido do putativo golpe de estado palaciano, pois estariam eventualmente a festejar na tasca, uns a vitória e outros, a derrota de Sócrates, o Presidente da República fala.
Num país adulto, o resultado das eleições legislativas devolveria a vontade ao povo, através da voz dos seus representantes, semi-escolhidos, pois não votaram neles, mas sim nas listas partidárias, vontade que esteve asilada politicamente durante quatro anos, escondida atrás da maioria absoluta, que o inteligente eleitor tinha dado nessa altura a um animal político, que de política pouco ou nada sabe, segundo a opinião de homens de vulto da cultura portuguesa!
Nada de mais errado. O povo agora vai ter a oportunidade de descobrir que nada manda.
Segundo relata a imprensa portuguesa, Cavaco falou e pediu aos partidos que se abstenham de chumbar o programa de governo, a discutir já no princípio de Novembro e que, também, viabilizem o Orçamento de Estado para 2010!!!
Em palavras que se entendam, pede-se que se ignore a vontade do povo, o resultado das eleições, e que se faça de conta que estamos num regime presidencialista, em que o PR é o detentor da verdade e paternalmente, pede para esquecer a vontade expressa, para, pelo contrário, fazer o que ele acha que é bom e que, tão maus resultados trouxe a Portugal, nestes últimos quatro anos!
O voto, que era a arma do povo, deixou de o ser. Manda quem mais pode, Sócrates mantém o chamado núcleo duro e, o ónus da queda do governo não é dele, pois superiormente se lhe reconhece o direito de mandar e não transigir e, continuar a enterrar o país economicamente, estrangulando o seu povo, com mais miséria e falta de futuro.
O povo já não tem armas. Foram-lhe retiradas pelo homem que elegeram para cumprir a Constituição.
Então, que ao menos usem de honestidade e limpidez e expliquem, porque já nem vale a pena votar.
E, se insistirem na caricatura de eleições, então que todos escrevamos no boletim de voto: perguntem ao PR!
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