Desculpas esfarrapadas

Parece ter bastado que o partido maioritário tenha invocado situações próximas na Assembleia da República para que se tenha deixado para terceiro plano o mediático tema das novas regras do quorum e das votações na Assembleia Legislativa da Madeira.

Pessoalmente pouco me importa que noutros parlamentos existam regulamentos e regimentos com alíneas pouco dignificantes. Interessa-me questionar sobretudo o que se passa na Assembleia Regional, onde o recente regimento aprovado com o voto único do PSD incomoda uma população cada vez menos crente nos deputados que os deviam representar.

O deputado Tranquada Gomes afirmou claramente que o PSD não quer ser apanhado desprevenido nalguma votação, e por isso fez aprovar a norma que estabelece que o voto de um deputado vale pela totalidade dos votos de todo o seu grupo parlamentar. Resta saber, como me dizia um amigo, se não bastaria a um funcionário de uma repartição ceder os seus subsídios de Férias e de Natal nos próximos dois anos, para que os seus colegas dessa repartição ficassem imunes a esses terríveis cortes. Outro amigo, menos meigo, perguntava se não bastaria uma refeição por dia a um deputado do PSD para que os outros se considerassem alimentados.

Quando os cidadãos se vêem espoliados de toda a esperança, quando se aumenta, com grande alarido, em cem euros o limite que garante a defesa dos subsídios, mas, em troca, se aumenta os impostos sobre os juros dos depósitos a prazo (a maioria dos quais míseros aforros), uns senhores deputados dão-se ao desplante de defender o seu auto-legalizado absentismo.

Esta estratégia dos deputados laranja destapa-lhes a careca: tão habituados ao poder absoluto, realmente correriam o risco de perder uma ou outra votação enquanto tratassem de importantes processos nos seus escritórios de advocacia ou realizassem grandes negócios nas suas empresas. Aqui está o busílis da questão: a Assembleia Legislativa da Madeira deveria rever o Estatuto Político-Administrativo, de maneira a incompatibilizar a função de deputado com determinadas práticas profissionais e empresariais. Quando isso for feito; quando acabarem as acumulações de salários com pensões ou reformas; quando os deputados só tiverem acesso a reformar-se na idade dos outros cidadãos; quando não houver subsídios de reintegração para os políticos; quando acabarem os favores e mordomias, então estarão em condições de pedir algum sacrifício aos cidadãos que dizem representar. Até lá, poupem-nos às desculpas esfarrapadas e às comparações desonrosas.

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