Bem-te-quero e malmequeres

Cada vez que leio afirmações de políticos, estejam eles ou não no activo, o meu organismo provoca um tipo qualquer de alergia que se manifesta através de um género de urticária mais mental que epidérmica.

Refiro-me às frases feitas que já me enojam e fazem-me sentir um particular de repulsa pelos mentores e oradores de tais passagens.

Estamos a atravessar momentos difíceis”. “É preciso encontrar consensos políticos e sociais”. “É necessário mais diálogo do ponto de vista político”. “As pessoas sofrem e interrogam-se sobre o futuro”. “Tenho esperança que Portugal ultrapasse estes tempos difíceis”.

Temos que poupar e fazer sacrifícios”. “Suspensão de subsídios não é de curta duração”. “Os próximos anos serão difíceis em Portugal”. “Passar receitas é fácil, conseguir um entendimento com as pessoas é difícil”.

Ora porra para todos eles! E para cada um deles em particular.
Isto é um exercício “da boca para fora” que representa não só um vazio de ideias como um vazio de posturas. Frases feitas que caem como pedras num deserto árido e seco. Absurdos robotorizados que lhes saem da boca mas não lhes chegam da alma.

Frases para boi dormir. Para mostrarem uma séria, e tão falsa, preocupação pelas maleitas e angústias alheias. Frases que soam a nada e que em nada contribuem para o amanhã. Frases que saem de bocas que auferem milhares de euros por mês e que sabem lá o que é a fome, o desemprego, o frio, o desconforto, a perspectiva de um não futuro.

É por isso que, de uma forma generalizada mas salvaguardando as honrosas excepções, a classe política me mete cada vez mais nojo, e desprezo, e pena, e desilusão. Quando é que conseguiremos afastar de nós este fado triste e viúvo?

 

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia

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