As culpas do vizinho

Já sabem todos que este ano que ora se inicia será muito difícil para a grande maioria da população portuguesa e para os madeirenses em particular, nos aspetos económico-financeiros.

É muito comum, em momentos de aflição ou de fracasso, as pessoas passarem as suas responsabilidades para outras entidades, para os vizinhos ou para o mau olhado. No País, os partidos que nos governaram vão passando o tempo na mesquinha discussão de dedo apontado uns aos outros, quando não atribuem aos mercados, às agências de “rating” ou à considerada fragilidade dos governantes europeus, figurados nas pessoas de Merkel e Sarkozy, as suas calamitosas governações. Até o presidente da República, que acumula seis anos de cargo máximo da nação ao de dez anos como primeiro-ministro finge não ter responsabilidades pelo estado a que o País chegou, ele que assumiu a governação logo após termos passado por outro aperto financeiro exigido por uma intervenção financeira do FMI.

Na Madeira, já habituados a um presidente de governo que se volta sempre contra inimigos externos quando está em dificuldades, não nos admiramos com esta estratégia mil vezes repetida. Os escribas ao serviço do poder regional, ancorados num jornal pago com o dinheirinho que tanta falta começa a fazer a todos (mesmo àqueles que o recebem como se fosse de graça), quase se esqueceram dos adversários políticos internos (acusados de colaboracionistas e já está) para se atirarem contra o governo da República e contra os tais responsáveis europeus, que deixaram de apoiar financeiramente as políticas regionais.

Apostará a governação regional em passar a culpa para outros e surgirão, em conluio, os vociferantes apelos a uma revolta separatista contra aqueles que agora não querem (realmente não podem) continuar a sustentar dívidas que não vêem forma de serem pagas. Agora deverá ser renovada a nada subtil mensagem de Abril de 2007 (“Temos de ser uma máfia no bom sentido a ajudar-nos sempre uns aos outros”).

Apesar do esforço conjugado do governo, do partido que o apoia e da comunicação social patrocinada, muitos madeirenses, perante as dificuldades reais, deixarão de acreditar na estratégia que garantiu mais de três décadas de poder aos responsáveis pela família (no bom sentido).

Tudo continuará igual, porém, se as pessoas pensarem que a culpa é só do governo ou dos políticos. Há que dizer isto sem medo das consequências: os partidos são responsáveis pela qualidade das propostas apresentadas à população mas esta é que escolheu, de facto, os seus governantes. Durante estas décadas, houve partidos a lembrar que as dívidas teriam de ser pagas, nem que fosse pelas gerações futuras. Encolhendo os ombros, uns comportaram-se egoisticamente, pouco se importando com os vindouros, outros acreditaram que a tal família (no bom sentido) encontraria sempre uma forma de fugir às dívidas acumuladas.

Afinal, sejamos claros: são tão culpados os políticos que nos trouxeram até este estado de crise como os cidadãos que com eles colaboraram. As culpas não podem ser eternamente atiradas para o vizinho.

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