Carta de um desempregado

O facto de escrever para um jornal leva-me a receber, por correio eletrónico, algumas opiniões de amigos mas também cartas e autênticos manifestos de autênticos desconhecidos, com críticas, queixumes e revoltas. Porque esta me parece merecedora, aqui a divulgo, com licença do autor:

Fui dispensado após uma vida de trabalho. Sei que não volto a empregar-me, apesar de todo esse jogo de enganos a que chamam formação profissional, e que, eu, com o ceticismo próprio de quem só encontrou desenganos ao longo de uma vida de promessas, percebo que serve para dúzia e meia de empregos para os formadores e para a sobrevivência de algumas empresas da área, que têm de justificar os fundos europeus, os tais que serviram a tanta gente esperta e nada aos que acreditaram que era tudo para o bem de todos.

Vão dar-me o subsídio a que tenho direito e para o qual descontei durante mais de vinte anos, mas cortaram no seu valor, para que eu me habitue bem. Deixaram-me o mínimo para a sobrevivência durante dois anos, sobrevivência disse eu, com tempo para me preparar para a miséria seguinte. Espero-vos mais além.

Sei que quem não tem dinheiro não tem vícios e essa deve ser uma forma de cuidarem da minha saúde, já que secaram o Estado de todos os meios que permitiriam a proteção dos seus cidadãos.

Sim, aumentaram os impostos até um nível escandaloso mas, mesmo assim, não foi o bastante para as necessidades de um monstruoso aparelho sugador do esforço dos cidadãos comuns e para a ganância de tanta gente que conquistou influências no Estado, através de empresas e partidos políticos.

Agora que as pessoas como eu exigem responsabilização criminal das más práticas governativas, criminalização do enriquecimento ilícito e combate consequente à corrupção, uma caterva de advogados e políticos inventam justificações para a manutenção deste estado de coisas, este estado em que os simples são tratados como idiotas e desprezados e os responsáveis pela derrocada social continuam a viver num mundo de benefícios e mordomias.

Não me venham com sopas dos pobres. Vomitá-las-ei. Não me venham com esmolas partidárias ou caridadezinha para mostrar nos jornais. Espero-vos mais além.

Quando me vierem solicitar o voto, obrigar-vos-ei a pedir de joelhos, e então aquele a quem quisestes tornar pedinte rir-vos-á na cara. Tereis medo então, porque não acredito no vosso arrependimento.

A. P.

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