Novas medidas de austeridade são preocupantes

O bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas alertou hoje para as consequências das novas medidas de austeridade na economia, embora reconheça que representam “alguma inevitabilidade”.

“Vejo [as medidas que constam da proposta de Orçamento do Estado] com muita preocupação e com alguma inevitabilidade”, disse Domingues de Azevedo, à margem do ciclo de conferências “Portugal, a soma das partes”, que decorreu no Funchal.

Para Domingues de Azevedo, “um aluno do 1.º ano de Economia percebe que se as pessoas não têm dinheiro não compram; se as pessoas não compram então não há necessidade de produzir; se não há necessidade de produzir não há necessidade de ter trabalhadores nas empresas; se não há necessidade de ter trabalhadores nas empresas há despedimento e, havendo despedimento, o Governo vai ter que valer a essas pessoas através do fundo de desemprego”.

Assinalando que os “efeitos circulares” das medidas “não estão devidamente estudados” e que o seu propósito é ajudar as contas públicas, mas não vão potenciar o crescimento económico, o bastonário salientou, ainda, que o tempo que foi dado a Portugal para ultrapassar esta crise “é um tempo, nitidamente, para criar mais problemas”.

“Vamos revolver em quatro anos o que andámos 40 anos a construir?”, questionou o responsável, sublinhando que, embora tenham de existir medidas para colmatar a crise, as que têm sido apresentadas “são de uma violência muito grande para quem trabalha”, criticando, por outro lado, a opção “de deixar de fora deste processo os rendimentos de capitais”.

Acreditando que, em sede de especialidade, a proposta de OE vai sofrer “muito poucas” alterações, Domingues de Azevedo acrescentou ter “muitas dúvidas” de que o Presidente da República vá agir nesta matéria, “porque seria, de algum modo, entendido contra o Governo que ele apadrinha”.

O bastonário apontou a este propósito a mudança de atuação de Cavaco Silva nos “últimos tempos”, depois de, quando tomou posse, ter feito um apelo no sentido dos cidadãos intervirem publicamente “para inverterem a situação política no país”.

“É eleito, vêm as eleições [legislativas] e o senhor Presidente da República hoje acha que os cidadãos já não devem intervir, acha que devem é – como se diz no nosso povo -pagar e não tugir aquilo que os outros dizem para eles pagarem”, considerou.

Questionado se o Chefe do Estado está a fazer jogo partidário, o bastonário declarou: “Penso que qualquer pessoa, com o mínimo de inteligência, já se apercebeu disso (…). Numa situação em que era necessário intervir, como ele dizia quando era o Governo de José Sócrates, passou-se para uma situação de passividade, uma situação de pagar e não intervir com este Governo”, afirmou o líder da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas.

Pin It on Pinterest