Festas e dívidas

Os Madeirenses vivem a Festa num contínuo entre o Natal e o Ano Novo, com os limites alongados até aos dias das missas do Parto e até ao Santo Amaro.

A revéspera de Festa, com a tradicional ida ao mercado do Funchal, para a compra das frutas e legumes mais frescos e dos brinquedos em falta para o sapatinho transformou-se em mais uma passagem do calendário festivo, a ganhar cada vez mais popularidade.

Ainda que não defenda a manutenção invariável das tradições para benefício do postal etnográfico, não aprecio que as festividades funchalenses da revéspera de Festa tenham evoluído para mais uma feira da poncha e da cerveja, tal como lamento a falta de engenho de algumas autarquias da ilha, as quais procuram fazer uma cópia (limitada) da “noite do Mercado”. Trata-se, na realidade, de atividades promovidas e /ou patrocinadas por entidades públicas, regionais ou municipais, sujeitas aos objetivos delineados nos gabinetes.

A “noite do Mercado”alargou-se para mais ruas do litoral oeste do Funchal, permitindo mais espaço para um número crescente de pessoas em busca de folia. Este ano, mais do que nunca, e aproveitando uma temperatura de início de Outono, a população quis festejar, “enquanto se puder”, ou “para esquecer a crise”. O povo sabe o que o espera no próximo ano e o seu comportamento pode ser entendido como um grito coletivo contra a subjugação e a tristeza.

Ao longo dos séculos, a maioria dos madeirenses passou por enormes dificuldades, não deixando de participar alegremente nos seus arraiais e festas, porque sempre soube que “tristezas não pagam dívidas”. A grande questão é saber como há de reagir perante as adversidades predestinadas, atendendo ao caráter da entidade destinadora.

Os senhores da terra não poderão invocar Deus na hora amarga, e não será o álcool despejado em copos de poncha a saldar as dívidas fatais.

[fblike style=”standard” showfaces=”false” width=”450″ verb=”like” font=”arial”] [fbshare type=”button”] [twitter style=”vertical” float=”left”]

Pin It on Pinterest