A morte da autonomia

O Carnaval vai servindo para as pessoas que podem esquecerem as dificuldades acrescidas com que têm vivido ou se preparam para suportar. Estes períodos festivos servem de libertação face às rotinas e às obrigações sociais. A integração destas festividades de espírito transgressor em programas organizados de governos, câmaras e outras instituições, se aparentemente pretende evitar os excessos, inibe, no entanto, o escape face às repressões a que o indivíduo está sujeito, o que poderá levar a outros modos de explosão socialmente mais perigosos.

Esta folia organizada veio aquietar a discussão pública acerca do Programa de Ajustamento Financeiro a que a Região está sujeita por prementes necessidades financeiras resultantes de políticas que só poderiam conduzir a esta situação. No entanto, este assunto voltará rapidamente ao centro da política regional e à Assembleia Legislativa da Madeira, com dedos em riste apontados aos deputados de uma ou de outra cor, fingindo todos que ainda são úteis, quando, na realidade a Autonomia morreu.

Quem se deu ao cuidado de observar, com algum distanciamento, como foi construído o edifício autonómico, pedra a pedra, conhece o que ela significa para os seus principais beneficiários. De facto, são estes que lhe cantam as loas mais sonoras, em papel azul e amarelo. Quem ouviu atentamente o eclodir dos primeiros ruídos autonómicos percebeu logo os caminhos a percorrer pelos seus arautos. Provavelmente não imaginaria, porém, este fim de mão estendida.

A Autonomia pintada de azul e amarelo morreu, conforme se pode ler no Programa de Ajustamento assinado pelo Governo Regional: “O Governo Regional da Madeira compromete-se a submeter para análise do Ministério das Finanças, até Março de 2012, a proposta de Orçamento da RAM para 2012 antes da sua aprovação pelo Governo Regional da Madeira para efeitos de submissão à Assembleia Legislativa da Madeira. As propostas de Orçamento para os anos de aplicação deste Programa serão analisados pelo Ministério das Finanças em Outubro do ano anterior ao exercício a que dizem respeito”. Assistir-se-á, brevemente, no parlamento regional a um novo carnaval, com gente mascarada de deputados, fingindo que está ali a fazer qualquer coisa, quando o Orçamento Regional for a discussão, depois de tudo decidido pelo Ministério das Finanças.

Conduzidos a esta situação falaciosa em nome da Autonomia, percebemos agora que passaremos sem ela mas com as suas despesas. Os nossos impostos continuarão a servir para máscaras e fatos de luxo, em carnaval organizado, mesmo que outros venham a ser os foliões.

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