A perda da representatividade

Compete aos partidos oferecerem ao eleitorado os seus melhores nomes, isto é, os seus mais valiosos correligionários, tornando-se garantes da sua idoneidade para a função legislativa. Se os eleitores não aceitassem como boa a escolha que os partidos fazem dos seus candidatos, correr-se-ia o risco duma tal dispersão de votos, que poderia chegar-se ao extremo disparate de ser um indivíduo… eleito por si mesmo, isto é, com o seu voto. (…) O demónio é não se poder exigir dos candidatos à representação nacional, deputados e senadores, que documentem a sua idoneidade para o exercício da função que se propõem desempenhar, sendo certo que essa exigência se faz para os mais humildes servidores do Estado.”

Brito Camacho, “Os sem política”, in Matéria Vaga

Na semana em que se discutiu na Assembleia Legislativa da Madeira o Orçamento Regional para 2012, comentou-se profusamente a afirmação de Pacheco Pereira de que “a cama está posta para um novo Sidónio Pais”, referindo-se naturalmente ao messiânico anseio popular do surgimento de alguém que se imponha à mediocridade partidária, ainda que através da ditadura. Já José Brandão escreveu um livro sobre esse messiânico herói popular com o título Sidónio Pais – Ele Tornará Feito Qualquer Outro.

Quem observasse o espetáculo degradante da discussão deste terrível orçamento num espaço que deveria ser respeitado por gente que se desse ao respeito e visse, assustado, que alguns jovens estudantes estavam a observar a vergonhosa atuação dos deputados, não duvidaria do recrudescimento do mito sidonista.

Ao longo de todos estes anos de parlamento regional, habituei-me a vê-lo como um espaço de mau exemplo democrático, mas principalmente de deputados de duvidosa qualidade intelectual e com comportamentos deploráveis, um espaço a nunca levar crianças ou jovens em aprendizagem. Habituei-me a ver um indecoroso comportamento dos deputados da maioria, desprezando regras da democracia e do respeito humano.

Ao longo destes anos, vi mentiras, enganos, demagogia e desprezo pelos outros. Nunca, porém, como agora, vi tanta pobreza humana, intelectual e democrática, de ponta a ponta, com raras excepções. Vi desrespeito pelos cidadãos que elegeram deputados para fazerem discursos inúteis, ocos e vazios, coloridos por linguagem de cocheiro, ainda que de saias. Vi deputados rindo, gozando, brincando, cruzando vozes, vociferando, gritando, telefonando, escrevendo enquanto ouviam discursos que comentavam ao instante e, cúmulo dos cúmulos, invocando situações anedóticas de sexo oral como putativo argumento.

Mais baixo que isto deve ser difícil. Por isso, para evitar que os partidos corram o risco de nada nem ninguém representarem, vendo surgir, em seu lugar, Sidónio Pais feito qualquer outro, proponho que esta gente não receba o vencimento a que julga ter direito pelo trabalho da última semana.

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