A recordação é a melhor herança…

A experiência de um pai é mais que a ciência de um filho” não é uma frase de algum autor de renome, simplesmente a de um homem que viveu a vida do trabalho. Sobretudo o trabalho da terra, que defendia que era uma espécie de terapia, fazendo-o um pouco mais feliz todos os dias. E quando um dos seus filhos fazia algo “menos correcto” nos afazeres agrícolas lá saltava a frase tão na ponta da sua língua. Outra expressão, esta mais “perigosa” tendo em conta que a língua portuguesa é traiçoeira, mas que muito cultivava, era a de que tinha “70 meninas para cuidar.” As meninas eram as suas bananeiras que cuidava com tanto afinco e amor, e que foram sempre fonte de orgulho e, também, de algum sustento económico.

A prática fê-lo igualmente um excelente meteorologista, pois sempre preocupado e atento aos seus cultivos, lá saiam expressões como o “tempo está à ponta” ou o “tempo está a norte”, que me deixavam incrédula com a precisão quando vinha a confirmar mais tarde que o vaticínio sempre se cumprira.

No final de um dia a limpar os cachos de banana, e enquanto esperava que o esquentador aquecesse a água para o banho, lá vinham os habituais queixumes da vida dura de quem trabalha a terra, e lá vinham as “mãos a arregoar”, murchas, ásperas e feridas, ao mesmo tempo que um sorriso nos seus lábios nos dizia que estava satisfeito e que o seu dia de trabalho tinha terminado.

Mas o trabalho que desempenhava com o maior empenho e responsabilidade era o de Avô, Pai, Marido, Irmão, Tio e Primo. Era um homem que, pequenino de tamanho, era enorme para a sua família. Sempre cheio de histórias para contar e quando muito feliz pegava na sua gaita e tocava as músicas populares que cresceu a ouvir. Um homem que amava a terra e os seus, primeiro que si mesmo. E crente a Deus. Da habitual ida à missa à ajuda a instituições de cariz religioso. Lembro-me de um dia ter recebido uma carta de um menino que agradecia ao seu padrinho a ajuda que lhe tinha dado. Mas nunca, em momento algum, o ouvi “gabarolas”. Nunca o vi com tempo para as “bilhardices”. Nunca o vi perdendo o tempo das suas “meninas” e da sua família com tramóias ou invejas.

Era um homem e como tal partiu deste mundo. Se tinha medo da morte, não o sei. Só sei que me ensinou que “ninguém é deste mundo” e que “a nossa passagem é curta”. Tinha toda a razão. Mas a memória não é curta e a herança que deixou foi riquíssima. Boas recordações, hábitos, das palavras que dizia. É difícil de escrever em algumas linhas a enormidade que o meu avô foi enquanto pessoa e o quanto marcou-me a mim. Acredito que onde estejas estarás bem e a olhar por todos nós. Até sempre avô Martinho…

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