Regressos e expectativas

O mês de Outubro que está ai mesmo à porta sempre representou para mim um mês de retornos. Os dias começam a diminuir, a chuva começa a aparecer, a temperatura começa a baixar, as aulas a iniciar e as férias daqueles que ainda trabalham a terminar.

Outubro para mim era sinónimo da quebra da “rotina” dos dias solarengos de praia e de brincadeira, para a alegria do regresso à escola. Lembro-me da dificuldade em dormir na noite antes do primeiro dia de aulas. Imaginava novos colegas, professores, matérias e adorava ter a oportunidade de estrear os cadernos as canetas e sentir o cheiro a novo dos livros. Sentia igualmente saudades dos antigos colegas e ficava desejosa que saber o que tinham feito durante as “férias grandes”.

Este sentimento como que mudou com a minha ida para a Universidade em Lisboa, vendo-me obrigada a deixar para trás o meu mundo conhecido de pessoas e afectos, aventurando-me num “território” novo e desconhecido. Assim à chegada de Outubro e o entrar do Outono, causava-me uma melancolia, pesarosa por ter de deixar mais uma vez os espaços onde me sentia verdadeiramente em casa. Com o passar dos anos a melancolia deu lugar às expectativas em relação ao futuro profissional e ao que fazer após acabar os estudos. Senti que no decurso da minha vida académica universitária deu-se como que uma passagem daquela inocência e entusiasmo pelo aprender, pelo estudar, para uma gestão de expectativas que, com o deteriorar do estado de coisas do país, poderiam acabar completamente goradas num futuro bem próximo.

Actualmente o que se assiste é a uma inocência perdida muito mais cedo. São muitos os jovens que precocemente vivenciam o drama do desconhecido e, particularmente, da falta de expectativas em relação ao seu futuro. O seu futuro já não é delineado com base no que gostam ou que se sentiriam realizados, mas na escolha fria e racional da garantia de sobrevivência. Retirou-se o prazer ao estudo. Os jovens são reencaminhados sem condições físicas, materiais, e à mercê de profissionais desmotivados. A escola transformada em empresa. Expectativas? Poucas ou nenhumas respondem. Um futuro desenhando a negro e de semblante acentuado.

Olhando para trás, posso honestamente dizer que sinto saudades do tempo da minha infância, daquele tempo em que ninguém me oferecia um futuro vazio. 

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