Massacre ou Conhecimento Explícito da Língua

Teolinda Gersão, ex-professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada, e escritora de méritos reconhecidos, como atestam vários prémios literários, entre os quais se destaca o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, para o seu livro A Casa da Cabeça de Cavalo, em 1995, escreveu recentemente um artigo para o jornal “Público”, onde, ficcionando uma redação de um aluno do 8º Ano, zurze no estado atual do ensino de Língua Portuguesa, especialmente no que concerne à Gramática, a que ora se dá o nome de Conhecimento Explícito da Língua.

A redação, de um tal João Abelhudo, intitula-se “Declaração de Amor à Língua Portuguesa” e denuncia sarcasticamente as mudanças na terminologia gramatical que, a cavalo de um grupo de linguistas mais interessados na difusão das suas teses académicas do que na defesa e ensino da Língua Portuguesa, atravessou caminhos tortuosos como a TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) para encalhar no Dicionário Terminológico e neste CEL (Conhecimento Explícito da Língua), imposto à disciplina de Português a partir de 2009 como mais uma competência essencial.

João Abelhudo, começando por afirmar que “as aulas de português são um massacre”, estranha a passagem de alguns complementos circunstanciais para a nova designação de complementos oblíquos ou até para estranhos predicativos do sujeito, como na frase “O Quim está na retrete”, em que “na retrete” passa a ter o mesmo valor sintático que “bonita” na frase “ela é bonita”. Depois ironiza com “verbos epistémicos, percetivos, psicológicos e outros” e com muito mais: “o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas”. Pergunta ainda: “o que acham de adjetivalização deverbal e deadjetival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais?”

Para não deitar a gramática na retrete, como ameaça o João Abelhudo, é necessário que haja mais vozes a gritar que o rei vai nu nestas terminologias e sobretudo no ensino da Língua Portuguesa, como já avisou Maria do Carmo Vieira ao falar da TLEBS no livro editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos: “Nem sequer é uma nova terminologia, mas uma nova e voluntarista teimosia em emplastrar os Ensinos Básico e Secundário com pastosas nomencla(tor)turas que, salvo um ou outro aspeto mais fecundo, não devem, à letra, ser usadas nestes níveis de ensino”.

A valorização do CEL nos novos programas de Português acompanha, como é óbvio, o incremento da pragmática e a desvalorização dos conteúdos literários, caminhando forçadamente a disciplina para o “massacre” de que se queixa o João Abelhudo. Só a beleza e o simbolismo dos textos literários e o amor à Língua Portuguesa por parte de pessoas como Teolinda Gersão, professores e outros intelectuais poderão impedir o desastre.

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