Contando os nomes

As dificuldades do ensino da Gramática colidiram, ao longo de décadas, com um sistema de ensino de tendência marcadamente facilitista e com a visão de uma escola submetida aos ludismos.

 Francamente contra o facto de, na escola, a Gramática (Conhecimento Explícito da Língua) passar a mais uma competência distintiva, em lugar de ocupar o seu posto normativo e auxiliar da leitura, da interpretação e da escrita, temo que se passe de um estádio de dificuldade dos professores para um nível onde estes se tornem papagaios desanimados.

Hoje falarei do percurso escolar do “nome” ou “substantivo”. A tendência é para que esta classe de palavras deixe mesmo de ser “substantivo”, termo riquíssimo, derivado de “substância” ou “essência”. O problema, imagine-se, seria ligar a “esse”, o “ser” latino. Em vez de permitir os caminhos pelo Latim ou até pela Filosofia, num tempo tão inimigo da cultura e do pensamento, tudo se torna mais fácil com a aceitação de “nome”, ainda que, depois se tenha que ensinar as orações subordinadas “substantivas”, quando estas desempenham uma função característica do “nome”.

Numa gramática didática atualíssima, definem-se “nomes” como “palavras que funcionam como núcleo do grupo nominal”. Mais do que um truísmo, esta definição é uma nulidade, semelhante a definir “mistério” como o caráter do que é misterioso. Na mesma gramática, ainda que se diga que “os elementos desta classe podem denotar entidades concretas ou abstratas, a verdade é que a tradicional divisão dos nomes entre concretos e abstratos desaparece no Dicionário Terminológico em vigor. Para além de continuar a haver nomes próprios e comuns e estes englobarem o “coletivo”, desaparece a referida dicotomia concreto/abstrato para surgir a oposição “contável/não contável”, sem que se perceba a utilidade destas novas subclasses para a compreensão da língua.

Estamos efetivamente num tempo de números, onde interessa contar e não pensar ou filosofar. Tornava-se difícil explicar a alunos habituados, desde os primeiros anos, a perceber os concretos como os “substantivos” que indicavam o que podia ser apreendido pelos sentidos, que palavras como “Deus” ou “anjo”, seres impercetíveis, podiam ser concretos. Mas essa era uma tarefa enriquecedora das aulas e do pensamento. O que interessa agora é o mundo explícito, contável, material, que pode e deve ser veiculado com uma folha na mão, bem preparadinha na noite de véspera pelos burocratas dum ensino que caminha para erradicar de vez a imaginação e o pensamento. Nomes? Contáveis ou não contáveis? Alta sabedoria!

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