Só os deuses sobem ao Olimpo

Apesar do excelente comportamento de alguns atletas, entre os quais se incluem os madeirenses Marcos Freitas, no ténis de mesa, e Helena Rodrigues, na canoagem, ouve-se já, antes do encerramento dos Jogos Olímpicos, o lamento por Portugal não conseguir conquistar medalhas olímpicas.

Algumas pessoas começam a pedir a cabeça de responsáveis pelo Comité Olímpico, outras iniciam o coro dos queixumes pela falta de apoios estatais ou das próprias federações. Quem raramente se interessa pelo fenómeno desportivo vitupera atletas e a própria mediocridade portuguesa, seguindo o habitual menosprezo colectivo que nos contamina durante longos períodos.

Quem esperava as duas ou três medalhas do atletismo esquece as lesões que atingiram atletas como Francis Obikwelu, Nélson Évora ou Naide Gomes, de quem se aguardava as conquistas. Quanto ao judo, falharam os atletas portugueses como os de muitos outros países e é isto o desporto. Ao invés, no remo, na canoagem, na vela, no ténis de mesa e até na maratona feminina, os lusitanos conseguiram bons resultados.

No desporto, ganha-se ou perde-se. Nos Jogos Olímpicos estão os melhores dos melhores de todos os países, logo ganhar é dificílimo, e é isso que todos devemos considerar. Só os deuses sobem ao Olimpo. Muitos deuses actuais são formatados desde meninos por homens, máquinas e seringas, como muitas vezes se verifica semanas, meses ou anos após os Jogos Olímpicos.

Para os que lamentam a falta de medalhas, num tempo em que todos precisamos de uma alegria portuguesa, verifique-se como a Espanha, com uma população quatro vezes maior que a nossa e uma aposta desportiva muito vincada, só possui três medalhas (duas de prata na natação e uma de bronze na canoagem), a Bélgica duas e a Áustria continua a zeros. E que dizer da rica Alemanha, com mais de 82 milhões de habitantes e apenas vinte e duas medalhas, quando antes da reunificação o Leste e o Oeste mediam forças com a União Soviética e os Estados Unidos?

A falta de medalhas deverá levar-nos a pensar como custam a ganhar, valorizando-se mais os grandes atletas medalhados ao longo das diversas competições olímpicas. Para que continuem a surgir campeões portugueses, as escolas, a partir do 3º ciclo, deverão considerar a possibilidade de horários diferenciados ou turmas para os jovens desportistas identificados como de qualidade ímpar ou já integrados no desporto de alta competição. Agora com professores sem carga horária (ou horário zero), não será difícil possibilitar aos jovens desportistas compatibilizarem treino e estudo. Talvez assim surjam mais campeões olímpicos.

Quem sabe se um português não ganha uma medalha nestes dias que faltam… Se assim não acontecer, percebamos que o desporto também é vida, onde se ganha e perde. Não é por acaso que se chama a alguns desportistas jogadores.

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