Bem-te-quero e malmequeres‏

Sob pena de autuação

Ao longo da vida todos nós somos chamados a cumprimentos por observância da lei, a posturas decorrentes da Constituição, a comportamentos regidos pelo social e politicamente correcto, apesar dos muitos infractores que por todo o lado existem, começando tantas vezes no exemplo de quem é suposto governar-nos acima de qualquer suspeita, ou pelos que são geneticamente criminosos.

Ao longo do nossos tempo terreno somos obrigados a não fumar em recintos em que tal é proibido sob pena de autuação. Somos proibidos de puxar o alarme do comboio sob pena de autuação se tal não se justificar. Somos proibidos de ultrapassar limites de velocidade ao volante, ou de estacionar em locais interditos, sob pena de autuação.

Estamos proibidos de fazer ruído fora das horas da noite sob pena de autuação.

Existem obrigações como a de pagar a tempo e horas as contas que nos entram em casa, de cumprir prazos para entrega e pagamento de impostos, de cumprir os mínimos de escolaridade obrigatória, de mantermos o cinto apertado quando estamos dentro de um avião.

Existem princípios de boa cidadania e convivência, como o não bater na mulher (mesmo que o Benfica perca), de não cuspir para o chão, de não falar com a boca cheia, de mastigar de boca fechada, de não pôr os cotovelos na mesa, de não deixar crescer a unha do mindinho, de não usar gravata a descondizer com o resto da farpela, de não insultar gratuitamente o próximo, de não maltratar os animais, de não roubar o patrão.

Do que nunca ninguém se lembrou é de autuar os que não lêem. De tornar obrigatória a leitura ou a companhia permanente de um livro (à semelhança do BI ou da carta de condução). Nunca ninguém se lembrou de alterar a Constituição aditando-lhe uma alínea de “leitura e porte de livro obrigatórios”.

Nunca ninguém se lembrou de proibir a circulação dos não leitores, ou de lhes vedar o acesso à sociedade, reduzindo assim a zero a iliteracia de um povo, aumentando-lhe o coeficiente cultural, e castrando-lhe a boçalidade e a banalidade de postura.

Porque se toda a gente fosse obrigada a ler e a ter porte de livro permanente, a ignorância arrogante, a imbecilidade provinciana e a estupidez crónica e inata estariam à partida condenadas.

Corrija-se a lei! Transforme-se o livro num bem de primeira necessidade e eleve-se o conhecimento ao estatuto de património cultural material e idiossincrático!

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia.

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