A Língua não é lixeira

Nos comentários internáuticos a uma notícia de um diário local sobre a diminuição dos professores contratados nas escolas madeirenses, alguém que se diz professor “há 14 anos” (embora custe a acreditar) exemplificou uma possível vinculação extraordinária, com cujos termos não concorda, com esta ridícula hipótese de frase: “ O Manuel e docente à 11 anos tem média de 21”.

Saiba-se que o indivíduo, que eventualmente por vergonha encobriu o seu nome, defendia um meio “claro – justo e meritocrata – para acabar com as vantagens dos menos capazes sobre os mais capazes”. Ao ser alertado para a sua incoerência, o homem justificou-se, dizendo que não era professor de Português mas de Inglês, catalogando logo de “miseráveis” os que não discutem ideias e projectos, ficando “pelos pormenores”. Mas, se é professor, não o é numa escola portuguesa e não está obrigado ao uso correcto do Português?

No facebook e outras vias informáticas, encontramos diariamente uma profusão de erros ortográficos ou sintácticos a testemunhar uma grande ignorância da Língua Portuguesa, rapidamente desvalorizada da mesma forma que o fazem as crianças de escola pouco interessadas em aprender ou evoluir: “Não interessa a forma; não percebeu?”

Este desprezo pela língua mátria aparece muitas vezes na boca de petulantes sempre prontos a desqualificar (através de preconceitos, frases feitas, imagens ou fotomontagens) estadistas, políticos, académicos, cientistas e outras pessoas que pensem ou decidam a contragosto de gente que nem a sua língua é capaz de usar com um mínimo de sabedoria.

Num espaço onde se pode encontrar o óptimo e o péssimo, o belo e o horrível, o são e o putrefacto, o sábio e o ignorante, existem jardins e lixeiras. É importante, porém, que não nos confundamos na escolha: a Língua Portuguesa não é lixeira.

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