Bem-te-quero e malmequeres

Como será que a minha filha me irá recordar daqui a uns 40 anos quando o pai já estiver reduzido a cinzas e aconchegado num pote da Vista Alegre?
Que imagem terá ela de mim?
O pai que andava sempre de livro de baixo do braço? Ou com um bloco e uma caneta em riste? Ou sentado ao computador a escrever poemas de amor?
O pai que a deitava no colo e lhe dava beijinhos doces, carinhosos e eternos?
O pai que durante algum tempo foi um herói? Ou o que logo a seguir se tornou em apenas mais um homem? Em apenas mais um pai?
O pai que lhe dava castigos e por vezes lhe levantava a voz? Ou aqueloutro que lhe ensinava a conduzir, a perceber algumas coisas da vida, a contar-lhe histórias da sua meninice e juventude?
Ou serei a memória de um pai que a levava a viajar por esse mundo fora? Que lhe dizia ser o conhecimento do mundo e das suas gentes a melhor forma de aprendizagem?
Que a levava a tertúlias literárias, a vernissages, a ciclos de cinema, a concertos eruditos ou aos de jazz. Que a levava a clubes nocturnos em Nova Iorque ou ao bairro vermelho em Amesterdão ou à Disney em Paris ou ao museu em Santiago do Chile.
Ou aquele que não era severo e não a obrigava a ser a melhor da turma? Apenas a cumprir com o que lhe era exigido enquanto estudante.
Ou mesmo aquele que lhe dizia, contra tudo e todos, que preferia que ela fosse uma funcionária de supermercado feliz do que uma médica contrariada?
Ou o outro pai? Aquele que se apaixonava pelas coisas mais simples da vida: os gatos, o mar, a serra, o céu, a flor, a mulher, a criança, o idoso?
Lembrar-se-á ela do pai que a levava a jogar basquete ao fim-de-semana? Ou o outro, o que gostava de ficar um domingo inteiro sentado num sofá a ler e a escrever?
Lembrar-se-á ela do pai que um dia teve e que por ela chorou lágrimas de dor e felicidade? E que por ela era o pai mais apaixonado do mundo? E que por ela era o pai mais galinha da Terra?
E que para ela escrevia textos, desenhava poemas e realizava momentos para que, um dia, num tempo distante em que eu já cá não estiver, a minha filha saber que passei a ser o homem mais feliz do universo no momento em que ela nasceu.

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia

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