Tudo como dantes

Depois da inócua festarola da semana passada, com fogo-de-artifício solto nalgumas sedes partidárias, aposto em como a partir desta semana tudo volta ao mesmo.
Se a ostentação policial não houvesse sido tão megalómana, diria que estaríamos perante uma nova encenação do poder a preparar mais um apoteótico final à beira das urnas em outono vindouro. Em primeiro lugar, criou-se ingente suspeita, a motivar as mais desabridas línguas e infindável rol de boatos. Depois, uma nuvem de fumo escondeu a fogueira ateada, através de discussões laterais e fúteis. Num terceiro momento, levantaram-se as vozes mediáticas da ilha e do reino a defender honra, justeza e virtudes dos senhores ilhéus. No final do melodrama, a absolvição do protagonista implicará não a catarse mas o peso na consciência dos espetadores. O ator sairá em ombros, mais uma vez.
Tudo voltará ao mesmo, então, como ficou provado em mais um convénio, onde os oponentes se juntam em coro, para que assim os espetadores os vejam juntinhos e os avaliem por atacado.
Juntos, aguardam que o protagonista caia vencido, para encetarem o festim sobre os despojos, mas aguardam como sempre, de livro de contas na mão, já que não passam de contabilistas.
Alguém salta para o tablado, jovem ainda, de cartilha na mão e mostra que afinal isto não é só contas e discursos de brincar: desnuda tudo, mais uma vez, diz com todas as letras o que é um sistema, desde o ovo.
Por detrás da cortina, limpando os cantos da boca e mexendo os cordéis, tratam de seus negócios os deuses olímpicos, os da ilha e os do reino, os do poder e os do contra. Mas isto não pode aparecer numa primeira página, nem dum lado nem do outro da mesma rua.

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