Bem-te-quero e malmequeres‏

Países desarrumados

Conversava recentemente com alguém que, por entre esgares de (im)premeditada repulsa, me dizia detestar países desarrumados.

Países…desarrumados? – perguntei-lhe por entre balbucios de estranheza.

Sim, países africanos, sul-americanos e alguns asiáticos…

Ahhhhhh….e então entendi perfeitamente o que me queria dizer com essa dos “países desarrumados”.

É certo que também gosto de países como a Suíça, a Noruega, a Dinamarca, o Canadá, Singapura ou Islândia. Já passei por alguns deles e francamente gostei.

Mas, apesar de toda a verdade da sua História, de toda a monumentalidade da sua Natureza, de toda a idiossincrasia mais ou menos arrumadinha dos seus povos, são países que não me dão tesão (seja literal ou figurativamente falando). São países, ou povos, alguns deles, a que sinto faltar qualquer coisa. Quiçá a desarrumação…

Talvez porque muitas vezes eu seja um desalinhado social ou um irreverente convicto, a verdade é que me dou bem com a desarrumação mundana, civilizacional, idiossincrática.

Vivi quase dois anos na República Dominicana (reconhecidamente um país desarrumado), tenho milhares de quilómetros brasileiros (com estadas mais ou menos curtas) nas minhas pernas ao longo de estradas desarrumadas, cidades desarrumadas, gente aparentemente desarrumada. É um facto que a minha paixão maior é pela ilha do Fogo, uma ilha desarrumada de um arquipélago cabo-verdiano…desarrumado.

E se for ainda mais longe, tipo Birmânia, Guatemala, Síria, Colômbia, Vietname, Líbano, Argentina, Uzbequistão, Israel, Palestina ou Cuba (em todos estes já meti o pé e infiltrei a curiosidade) é uma conjugação de desarrumações que não lembra ao diabo! É caos, é desordem, é sujidade, é corrupção, é insegurança, é arbitrariedade urbana, é atropelo sobre atropelo, é um (hor)ror de ideias inestéticas. É tudo menos…arrumação.

A verdade porém, se realisticamente eu a quiser trazer à liça, é nos países desarrumados que me sinto em casa, seja a leste ou a ocidente. Porque é lá que vou encontrar a alegria de viver, uma contagiante forma de estar, uma sensualidade na flor da pele, uma musicalidade que se me impregna, uma beleza (seja histórica, arquitectónica, paisagística, humana) que tomara a muitos países arrumados. É lá que, afinal, vou encontrar sangue do meu sangue postural.

É lá que me sinto sentidamente em casa. É desses países que trago saudades com sabor a regresso. E gente com imensa (l)atitude!

Seja por isto ou por tudo o resto serei sempre um desarrumado no que toca às minhas preferências mundanas.

António Cruz escreve de acordo com a antiga ortografia.

[twitter style=”vertical” float=”left”] [fbshare type=”button”] [fblike style=”standard” showfaces=”false” width=”450″ verb=”like” font=”arial”]


PUB