Da comida picante ao chocolate: os ‘amigos e os ‘inimigos’ das doenças autoimunes

O que é que a comida picante tem a ver com as doenças autoimunes? Ou o chocolate? Ou ainda o café? A resposta foi dada por Yehuda Shoenfeld, internista que preside o 11º Congresso Internacional de Autoimunidade, na conferência que este ano trouxe a Lisboa mais de duas mil pessoas, um recorde para este tipo de encontros. “Yehuda Shoenfeld falou sobre o mosaico da autoimunidade, o que significa que para que apareçam as doenças autoimunes tem de haver um mosaico de fatores e um destes é a dieta”, explica Carlos Vasconcelos, internista e presidente honorário da conferência.

De facto, o que comemos tem influência nas doenças autoimunes, reforça o especialista. “A nutrição pode ser um caminho extraordinário para sabermos lidar melhor com este tipo de doenças. Saber, por exemplo, que a comida picante, muito típica de países asiáticos, pode proteger contra as doenças autoimunes devido à capsaícina, um composto que em termos de medicamentos existe apenas em forma de uma pomada para as dores musculoesqueléticas. Também a curcumina, que existe no açafrão, é um fator protetor. Ou seja, a natureza encerra em si mecanismos claramente protetores, que nós não temos conseguido usar.”

Outros alimentos há, como o chocolate que, em pequenas quantidades, pode também ser benéfico, embora em grandes doses passe a tornar-se inimigo da balança. “Já o café, pode ser mau para a artrite reumatoide, mas pode ser bom para a esclerose múltipla. E também fumar canábis pode ter um efeito protetor, ou calmante, para as doenças autoimunes, apesar de estar bem demonstrada a associação prejudicial do tabaco a algumas destas doenças”, acrescenta o especialista.

Aquilo que falta, refere Carlos Vasconcelos, é a “aplicação da nutrição na prática clínica. As pessoas pensam que a dieta é uma coisa necessariamente chata e aborrecida e não é; pensam que é necessariamente cara e não tem de ser. O que é preciso é que haja mais informação e nutricionistas disponíveis para isso.”

A forma como o ritmo circadiano pode influenciar este tipo de doenças foi outro dos temas do encontro. “Se pegarmos na mesma pessoa e lhe fizermos uma análise, por exemplo, aos glóbulos brancos às 8h00 e às 20h00, o número às vezes duplica e não é devido à presença de uma infeção. Outro exemplo são os corticoides, que queremos evitar mas que por vezes temos mesmo que dar nas doenças autoimunes: estes funcionam melhor às 2 da manhã. Tem tudo a ver com o ritmo circadiano e isto é algo de que nos esquecemos e no qual deveríamos investir mais, havendo aqui um importante caminho a percorrer”, explica Carlos Vasconcelos.

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