“Nós fazemos músicas e letras originais”

«Cachaços da Junta» conhecem sucesso na rede virtual após carreira de 20 anos da »Banda Fixe» nos arraiais.

jfnÉ no mundo dos arraiais da Madeira, considerado “muito competitivo”, que a «Banda Fixe» orgulha-se de celebrar 20 anos de carreira. Pelo meio surgiu os «Cachaços da Junta», uma banda de originais formada pelos mesmos músicos que é um caso de sucesso nas redes virtuais. José Francisco Nicolau, o vocalista, admite que o grupo ficou surpreendido quando o tema “Chupa-se a Cana” caiu no ouvido das pessoas. A aposta é para manter.

Ricardo Jorge Soares
rsoares@tribunadamadeira.pt
Tribuna da Madeira (TM) – A «Banda Fixe» faz 20 anos de carreira. Vai haver festejos?
José Francisco Nicolau (JFN) – Sim , no dia 03 de Setembro, inserido nas festas do concelho da Ponta do Sol, a Banda Fixe vai fazer a sua “festa” de aniversario na vila daquele concelho. Será um concerto em grande com algumas bandas e artistas regionais convidados.
Vamos ter, por exemplo, duas bandas da Ponta do Sol, os “Traquinas e os «Zig Zag» que já não tocavam juntos há 20 e 30 anos e que se juntaram para tocar na nossa festa de aniversário. Vamos ter igualmente o Vasco Freitas, dos «Galáxia», um ícone dos arraiais e da musica madeirense, entre outros artistas madeirenses que irão ajudar a abrilhantar esta fantástica festa. Vamos também, através de vídeo, viajar no tempo e recordar alguns momentos mais marcantes destes 20 anos.
Será um espectáculo bonito mas que só fará sentido com bastante público a assistir, logo, gostaria de deixar aqui o convite a toda a população para que no dia 03 de Setembro apareça na vila da Ponta do Sol e façam uma grande festa connosco.

TM – Que balanço fazem a estas duas décadas no ramo musical?
JFN – O balanço no geral é francamente positivo, o ramo musical não é um ramo particularmente fácil, mas nós temos sido batalhadores e temos conseguido levar a agua ao nosso moinho. Desde o inicio as pessoas têm nos acarinhado bastante e isso torna o nosso trabalho muito mais fácil, depois tratamos de transmitir a alegria que temos por fazer a nossa musica ao nosso público e isso é positivo.
Chegamos a estar dois anos parados na altura em que passamos do mundo dos estudos para o mundo do trabalho, mas depois de termos as nossas vidas estabilizadas, a «Banda Fixe» voltou à estrada, e isso foi o período mais negativo destes vinte anos. De resto, desde o carinho do publico, que como já referi é o mais importante, à amizade que nos une, as actuações que têm sempre aparecido, tudo tem sido sempre bom. Portanto, o balanço é positivo.

TM – Tem sido um percurso fácil?
JFN – Tem sido um percurso com os seus altos e baixos. Somos como uma família, e como em todas as famílias, também temos os nossos problemas, mas como a amizade que nos une é verdadeira damos sempre a volta por cima. Como disse na resposta anterior, chegámos a parar dois anos, tivemos portas fechadas no nosso caminho, mas soubemos sempre qual o caminho que queríamos seguir. Deus não fecha uma porta que não abra uma janela.
O mundo dos arraiais na Madeira é um mundo muito competitivo, cada vez mais existem mais projectos, e cada vez mais temos de estar actualizados e atentos à concorrência, mas graças a Deus  as actuações nunca faltaram, e isso é o mais importante. Arraiais sempre houve e havendo arraiais há a «Banda Fixe».

TM  – Quais têm sido as principais dificuldades?
JFN – As principais dificuldades, muitas vezes, é conciliar as vidas pessoais e profissionais com a banda. No inicio éramos cinco jovens estudantes e tínhamos todo o tempo do mundo, hoje somos homens de família, cada um com a sua profissão, e já o caso muda de figura, mas a boa vontade, o amor à causa e a compreensão das esposas faz ultrapassar as barreiras. Também não é fácil as vezes gerir os nossos diferentes feitios. Somos cinco seres humanos, todos diferentes, cada qual com o seu feitio, e apesar de sermos muito amigos, cada um tem a sua opinião e a sua madeira de ver as coisas e muitas vezes chocam. Mas é como eu já disse, não é nada que não se ultrapasse.
Outra dificuldade que nós – e outras bandas de musica popular também passam – é adquirir material, uma vez que o material de som é um bocado caro e para nos mantermos competitivos no mercado musical regional não podemos praticar preços altos. O dinheiro para investir não é muito, temos de fazer uma ginástica financeira.

“Ceroilhas” bem recebido pela crítica e pelo público

TM – Além da «Banda Fixe», os cinco elementos que a compõem também têm um projecto alternativo de originais que dá pelo nome de «Cachaços da Junta». O que justifica esta “duplicação”?
JFN – Não existe “duplicação”, sempre tivemos o desejo de lançar algo nosso, algo de original. A «Banda Fixe» estava a correr bem mas era um projecto de “covers”. Sempre fomos fãs dos «Mamonas Assasinas» e sempre gostámos de juntar o humor à musica, e daí surgiu, em 2011, a ideia do projecto «Cachaços da Junta». Começámos e compor e, naturalmente, nasceu o album “Ceroilhas d`Antoina”, que foi bem recebido pela crítica e pelo público, o que nos deixou muito felizes e orgulhosos.

TM – É incompatível fazer música original e ter sucesso no mercado?
JFA – Não, não é, podemos fazer música original e ter sucesso no mercado, na Madeira é que é muito difícil. Na Madeira a cultura do “cover” está muito enraizada e um projecto de originais tem de ser muito persistente para sobreviver. Na Madeira, quando vamos para um concerto e apresentamos só musicas originais, temos de ser muito criativos para prender as pessoas do principio ao fim. As pessoas na ilha desde sempre se habituaram a ouvir os artistas de cá a cantar a música feita pelos artistas de fora e não é nada fácil quando um artista resolve fazer música e provar que a malta de cá também é capaz de fazer coisas engraçadas.

TM – Há muitas dificuldades quando se trata de criar um projecto musical na Madeira?
JFN – Existem algumas, mas isso também depende do tipo de projecto musical que vais criar. Se for um projecto de “covers”, se calhar as dificuldades não vão ser tantas com se for um de originais. Mas claro que, depois, também depende de outros aspectos. Não te podes limitar a ficar na garagem a ensaiar à espera que te venham chamar para fazer actuações, tens de divulgar a tua música e isso é a parte mais difícil.
Há quem tenha agente, há quem não tenha. Hoje em dia existem as redes sociais que são um excelente meio para divulgar o que se faz na musica e não só. Mas claro que existe sempre a outra face, aquela para quem não basta ter “talento” mas de quem se mexe melhor nos bastidores, são situações com que temos de conviver.
O conselho que eu deixo a quem está começando agora é que trabalhe bastante mas que também divulgue muito a sua música nas redes sociais. Se trabalhar mas as pessoas não conhecerem o seu trabalho, não haverão convites para concertos. Quando a «Banda Fixe» começou, não haviam redes sociais, era o boca à boca, muito mais difícil.
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“Nós fazemos músicas e letras originais”

TM – Algumas musicas dos «Cachaços da Junta» conseguiram enorme projecção na rede virtual. Ficaram surpreendidos com o sucesso?
JFN – Com a primeira, o tema “Chupa-se a Cana”, sim, ficámos surpreendidos. Caiu no ouvido das pessoas, acharam piada e percebemos que estávamos no bom caminho. Os comentários eram todos positivos e percebemos que tínhamos de continuar nesse caminho, de seguir fazendo mais vídeos engraçados. Foi com naturalidade que surgiu o segundo vídeo, a “Cangueira das Patas”, pois éramos abordados pelas pessoas, que nos desafiavam a lançar mais músicas para o youtube.
O que fazemos é original, há muitos que pegam numa música conhecida e fazem uma letra cómica e lançam para o mercado. Nós, nos Cachaços da Junta», fazemos músicas e letras originais. Isso, sem querer puxar a brasa à minha sardinha, é de mérito. E há pessoas que reconhecem valor ao nosso trabalho.

TM – O tom satírico das letras é para manter?
JFN – Claro, isso é a imagem de marca dos «Cachaços da Junta». A sátira e humor, aliada a uma certa qualidade musical, foi o que nos fez a partir da «Banda Fixe» criar o projecto «Cachaços da Junta». Quando damos um concerto dos «Cachaços da Junta» gostamos de ver sorrisos na cara das pessoas, de ver boa disposição. Temos conseguido com a nossa sátira, não com humor de baixo nível e mal educado, porque não é isso que pretendemos para a banda.

TM  – Quais são os vossos projectos futuros para ambas as bandas?
JFN – Com os «Cachaços da Junta» queremos continuar a fazer músicas, lançar vídeos, dar concertos e, futuramente, lançar um novo álbum. As pessoas perguntam-nos para quando está previsto um sucessor de “As Ceroilhas D`Antoina” e nós dizemos que vamos com calma porque temos dois projectos para gerir. Vamos fazê-lo quando tivermos a maturidade suficiente e vermos que o mercado está pronto para o lançamento do segundo álbum dos «Cachaços da Junta», até lá vamos lançando singles e vídeos.
Para a «Banda Fixe», a ideia é continuar a animar arraiais e todo o tipo de festas um pouco por toda a ilha da Madeira. São vinte anos de luta, de muita alegria e de alguma tristeza, em que trabalhámos muito para aqui chegarmos. Não podemos parar agora, a máquina está oleada, funciona bem e muitas lágrimas já foram derramadas, mas muitas mais gargalhadas já foram ouvidas e isso é o que fica na memória. São tantas as memórias que podíamos escrever um livro. NO imediato o que queremos é realizar algo que fique como um marco pela passagem do nosso 20º aniversário. Não me refiro à nossa festa, mas a gravar algo. Vamos ver se é possível. Até lá fica no segredo dos deuses.

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