‘Entidades públicas não podem ter medo de debater o gado nas serras’

A Câmara Municipal do Funchal coorganizou hoje com a APSSASRA – Associação de Pastores das Serras de Santo António, São Roque e Arieiro, a Conferência “Reabilitação do Pastoreio e Regeneração dos Ecossistemas”, que contou com mais de 100 presenças na Sala da Assembleia Municipal do Funchal.

O Presidente Paulo Cafôfo fez a abertura e começou por explicar que “a Câmara Municipal do Funchal organiza esta conferência sobre a Reabilitação do Pastoreio porque as entidades públicas não podem ficar alheias a este debate. Passaram quase 20 anos desde que o gado saiu das serras e, no entanto, o principal problema estrutural subsistiu, ou se calhar até piorou: a segurança das nossas serras continua em cheque, como infelizmente se tem provado de forma cada vez mais avassaladora. Este é um debate que não podemos temer.”

O Presidente assumiu que o grande desafio era discutir a Pastorícia Ordenada e as técnicas aplicadas com sucesso noutras paragens, partindo da premissa de que “o gado ajuda a fertilizar os solos, o que previne aluviões, e a limpar terrenos, o que previne incêndios. E é importante perceber que esta não tem de ser uma escolha entre pastoreio e floresta, entre atividade económica e Natureza. Este não é um regresso ao passado. Evidentemente que, hoje em dia, ninguém defende o gado na serra como estava antigamente. Mas a verdade é que somos forçados a admitir que as soluções adotadas nas últimas décadas no controlo dos incêndios e na prevenção de aluviões revelaram-se ineficazes e consumiram recursos financeiros demasiado elevados.”

Paulo Cafôfo recuperou o exemplo “de outras regiões que têm conseguido bons resultados recorrendo ao pastoreio holístico e à transumância, como a Andaluzia ou as Canárias”, referindo que, no entanto, “estas práticas continuam a não ser bem recebidas na Madeira, pelas entidades oficiais. Não podemos fechar os olhos e fingir que não há alternativas. Hoje, tantos anos passados, temos de ser capazes de rever soluções e tentar fazer diferente, procurar equilíbrios e conjugar vontades.” Esta Conferência procurou, assim, “desencadear um conjunto de ações que possam, por um lado, desmistificar os preconceitos ainda existentes, e, por outro, potenciar projetos, sejam ou não experimentais, que contribuam, desde já, para a regeneração e consolidação das nossas serras.”

O Presidente finalizou considerando que “a Pastorícia Ordenada não é um mito só porque nunca a conseguimos aplicar na Região e porque é mais difícil, sobretudo quando teima em acertar noutras paragens, enquanto por cá, todas as outras soluções insistem em falhar, a nível económico, ambiental e securitário. Da parte da Câmara Municipal, o Funchal pode sempre contar com a vontade para discutir as melhores soluções, venham elas de onde vierem. Hoje damos o exemplo, mais uma vez.”

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