Madeira “sem espaço digno” para promoção da banda desenhada

A afirmação é de Martinho Duarte Abreu, ilustrador de banda desenhada.

Aos cinco anos de idade começou a folhear bandas desenhadas e foi aí que surgiu o “bichinho” para desenhar e que se mantém até hoje. Neste momento este artista madeirense está desenhando as histórias da mini-série “Herokiller”. Martinho Duarte Abreu tem como objetivos trabalhar por muito tempo com a Marvel e DC, mas também ambiciona trabalhar com editoras europeias.

Tribuna da Madeira (TM) – É ilustrador de banda desenhada. Há quanto tempo exerce essa atividade?
Martinho Duarte Abreu (MDA) – Exerço a atividade de ilustrador de banda desenhada (“comic book” nos estados unidos), profissionalmente, desde Novembro do ano 2015.

TM – O que o levou a seguir esta área vocacionada para a banda desenhada? Como surgiu esse “bichinho” de criar e desenhar?
MDA – Passei toda a minha infância e parte da minha adolescência em França, Paris. Esse é um país onde a banda desenhada faz parte da vida quotidiana das pessoas, sejam elas crianças, jovens ou adultas, tanto na forma própria da banda desenhada franco-belga como na tradução das histórias publicadas nos Estados Unidos, principalmente das líderes Marvel e DC, estas traduções e publicações sendo realizadas desde finais da década de 60. Muito novo, com cerca de 5 anos, comecei a folhear bandas desenhadas, tanto franco-belgas como Asterix, Gaston Lagaffe ou Spirou, mas também as traduções das histórias de super heróis da Marvel e DC, cujas histórias, na época, tinham tendência em atrair um público infantil e muito jovem, pelo caráter mais inocente das suas histórias. Posso dizer que fui alfabetizado pelas histórias em banda desenhada, e muito cedo comecei a desenhar, respondendo com convicção à famosa pergunta dos adultos “o que queres ser quando cresceres?” com um simples “artista de banda desenhada”.

TM – O que faz em concreto? E para que editora cria?
MDA – Sou ilustrador, portanto recebo o argumento e depois de lê-lo várias vezes passo à criação dos rascunhos das páginas da história (que são entre 20 a 24 para as editoras de super heróis).
Neste momento estou desenhando as histórias da mini-série “Herokiller”, escrita por Tony McDougall, ilustrada por mim, colorida pela colorista canadense Justyna Tunkiel, e publicada pela editora Markosia.
O primeiro volume, que contém as cinco primeiras edições, está disponível no site da Bertrand.
Para “Herokiller” procedo ao lápis e à arte final, usando pincel, diferentes aparos, tinta da china e canetas de desenho. Para as editoras americanas, cujo prazo de entrega é muito apertado, procedo ao desenho da página a lápis, que depois de completado é arte finalizado por um profissional nessa área. Estou de momento preparando novos projetos (também de super heróis), para editoras de renome internacional.

TM – O livro em BD “O ataque do submarino alemão em 1816”, com 64 páginas, apresenta ilustrações da sua autoria. Como foi realizar esse projeto?
MDA – Esse projeto serviu-me de laboratório artístico para tentar vários estilos gráficos, tentando definir qual seria o estilo que usaria no futuro. Foi engraçado trabalhar com tanta referência fotográfica e histórica.

 

“Sou o primeiro madeirense a conseguir
trabalhar nesta área, e tenho orgulho nisso”

 

TM – Já publicou mais de 20 histórias para “comics” e “fanzines” americanos. Sente que os seus objetivos foram alcançados?
MDA – Comecei muito recentemente a minha carreira profissional como ilustrador de banda desenhada. Tenho como objetivos trabalhar por muito tempo com a Marvel e DC no que diz respeito a histórias de super heróis, mas também ambiciono trabalhar com editoras europeias de “Bandes déssinées”, como a Soleil, ou outras. A minha história está apenas começando.

TM – Qual é o balanço que faz do seu percurso, das suas obras realizadas?
MDA – É fantástico conseguir trabalhar no que mais gostamos de fazer, e isso, não trocaria por nada. Não foi fácil chegar onde cheguei. O mundo, fora desta ilha, fervilha de gente apaixonada pela arte da banda desenhada. Sou o primeiro madeirense a conseguir trabalhar nesta área, e tenho orgulho nisso. Desenhar a série “Herokiller” foi o primeiro passo para entrar no mundo dos super heróis. Também colaborei com o famoso artista e argumentista Rusty Gilligan, que trabalha no mundo da banda desenhada americana e na animação desde 1978, tendo trabalhado tanto para a Marvel como para a DC. Desenhei o super herói criado por ele, The Symbol. O que se seguirá será fantástico. É um percurso positivo, muito positivo.

TM – A Madeira, sendo uma ilha, tem espaço para a promoção e divulgação da arte da banda desenhada, dos artistas madeirenses?

MDA – Os habitantes da ilha da Madeira continuam apontando o dedo a quem se interessa pela banda desenhada, afirmando que é algo “infantil”. Enganam-se, pois como o cinema, a banda desenhada tem um público infantil, e um público adulto.
Só saíndo de Portugal e indo para países como França ou Espanha para entendermos a diferença de mentalidades para com a aceitação de uma forma de arte muito antiga. Sem falarmos nos Estados Unidos ou Brasil, cuja arte dos comic book de super heróis faz parte do dia-a-dia das pessoas. Não penso que a Madeira terá alguma vez espaço digno para promoção e divulgação da banda desenhada. Há demasiadas mudanças a serem feitas. Quanto a artistas madeirenses, deve haver alguns jovens com a ambição de se tornarem artistas de banda desenhada profissionais. O meu conselho é tentem publicar lá fora. Não chegarão a ganhar a vida publicando em Portugal. A não ser que queiram desenhar como passatempo. Esta é uma área muito concorrida, a nível profissional. Mesmo muita. Poderá demorar anos até terem o primeiro trabalho profissional. Como diz o editor-chefe da Marvel, C. B. Cebulski, “É muito, mas mesmo muito difícil entrar no mercado internacional dos comic book. Mas é ainda muito mais difícil manterem-se nele. Entre cada 10 artistas que entram, apenas um continua ao longo dos anos”. Esta é uma realidade.

TM – Quais são as metas futuras? Tem alguma novidade em “carteira”?
MDA – Para o meu futuro artístico, quero primeiro terminar a mini série “Herokiller”. Estou atualmente desenhando a edição número #7. Mas ao mesmo tempo estão surgindo várias propostas de editoras de renome internacional. E como já referi tenciono trabalhar, em breve, para a Marvel ou DC. Não posso adiantar mais nada sobre isto de momento. Quem quiser saber mais, estejam atentos, na internet, ao ilustrador de banda desenhada/comic books Martinho Abreu.


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